terça-feira, 28 de outubro de 2014

A ressaca, os burros e as vísceras

(a ressaca, os burros e as vísceras)

Por João Carlos Teixeira

Apuradas as últimas urnas, apagados os holofotes dirigidos aos candidatos, retirados os últimos cavaletes das calçadas, o que resta é a sobriedade deste momento de pós-eleições. E, feitas as contas, algumas conclusões se evidenciam.

A primeira é a de que, corridas três décadas desde que a ditadura ruiu por aqui, temos uma democracia precária. E isto revelado, não necessariamente no trato de eleitos e eleitores, mas entre eleitores e eleitores. Estendendo, não creio que se possa dizer que estas foram as eleições de um Brasil mais politizado e engajado, mas sim, as eleições de uma Brasil ainda mais passional. O segundo turno da eleição presidencial contava com dois candidatos, dois partidos, mas poderiam ser dois times rivais... Palmeiras e Corinthians; Vasco e Flamengo; Sport e Náutico; Brasil e Argentina.

Em segundo lugar fica a convicção de que ainda não temos uma relação madura com as novas mídias de veiculação de informações. São raros os casos de equilíbrio ou uso racional das redes sociais: Ou postamos selfies ou disseminamos o ódio contra as escolhas diferentes das nossas. E neste sentido, assusta pensar que há, de fato, um pensamento consolidado de que algumas regiões do país são ‘mais inteligentes’ que outras, ou ‘superiores’ às demais.

Devido à divergência de etnias de nossa federação, o preconceito sempre esteve latente, difuso, solto no ar. Entretanto, agora, ele tem rosto, tem nome, tem um álbum com fotos felizes, em que aparece sorrindo ao lado da família... E para completar, nós conhecemos as faces, ou os Faces destes indivíduos. São nossos amigos, postam conteúdos em nossa linha do tempo, em nosso mural... Em poucas e medonhas palavras: Fazem parte de nosso círculo social!

A sensação de que uma raça é superior à outra não é nova na humanidade. São incontáveis os exemplos que o narram na história. Era o que a Alemanha nazista e a Itália fascista pensavam, só para citar dois exemplos próximos e cujas feridas ainda lutamos para curar. E deu no que todos conhecem.
Algo que também intriga é pensar como a opinião das pessoas foi decisivamente atingida pelas estatísticas. Sejam pesquisas realizadas antes do pleito, sejam pesquisas de boca de urna e seja o mapa das performances dos candidatos pelo país. Bastou a Rede Globo pintar uma parte dos estados de azul, e a outra de vermelho, para que a cisão se estabelecesse. Todas baseadas em conceitos generalizantes e vagos, endossados pela idiossincrasia dos números absolutos das urnas.

Para quem acha que o nordeste elegeu o PT, analise o que dizem – de fato – os percentuais: 47% do Rio Grande do Sul, os 40% do Paraná, os 35% de Santa Catarina, os 52% de Minas Gerais, os 54% do Rio de Janeiro, os 35% de São Paulo e os 47% do Espírito Santo. Ou seja, só os expressivos números dos Estados nordestinos não seriam suficientes para reeleger Dilma. São dezenas de milhões de eleitores de Dilma no Sul e Sudeste além de outras dezenas de milhões de eleitores de Aécio no Nordeste e, sobretudo, no Norte do país. E quem tece considerações sobre o resultado das eleições baseadas na cor que pintaram cada estado no ‘mapa das eleições presidenciais’ demonstra preguiça e a verdadeira burrice, a de não apurar os fatos com o mínimo de afinco.

Os paulistas estão garbosos de sua escolha para presidente (como se ela fosse homogênea). Por que não se orgulham dos nomes que escolheram para a câmara? Será que se preocuparam em formar coro para que seu candidato à presidência tivesse vida mais tranquila na votação de projetos? Tiveram algum critério politicamente relevante ao escolher seus deputados? É bizarro agora esbanjarem arrogância dizendo que as pessoas não sabem escolher seus representantes.

E quanto ao governo estadual? Reafirmaram o atual governador de acordo com suas convicções, ou apenas endossaram o que as pesquisas de intenções de voto já preconizavam? Alguém se deu ao trabalho de pesquisar as propostas dos outros candidatos? Ou mesmo as propostas do próprio candidato reeleito?

Há ainda quem escolha candidatos a cargos mais ‘próximos’ de nós (como vereadores e deputados estaduais) baseados na prestação de pequenos favores pessoais, empregos ou cargos públicos e outras tantas vantagens que não beneficiam a todos, mas a este ou aquele cidadão. É a visão equivocada de quem confunde interesse público com privado.

Com isso, infelizmente, conclui-se que o país não mudou. Nem após junho de 2013, tampouco após outubro de 2014. Permanecemos optando por nossos representantes políticos a esmo, ou por motivos torpes, infundados e/ou movidos pela paixão, o que é uma pena.

O saldo deste desgastante processo eleitoral é a de que teremos que conviver durante muito tempo com a opção alheia, sabendo de suas diferenças. Algo semelhante ocorreu na primeira eleição de George Bush, quando o país – já tão partido – dividiu-se durante muito tempo entre os que optaram pelo republicano Bush, e os que escolheram o democrata Al Gore.

O custo da democracia é este, e neste sentido nos entristece ver as pessoas fazendo menção de estarem de luto. Isso só representa que não sabem lidar com o diferente. Caso achem que a derrota de seu candidato representa morte, então não entendem que o princípio elementar da democracia se constitui na escolha de apenas um pela maioria. Tratam a situação da mesma forma que trataram a derrota de nossa seleção para a Alemanha na Copa deste ano, isto porque a fronteira entre votar e torcer foi diluída pela paixão, e o eleitor do outro candidato não é mais um cidadão que tem direitos e deveres como eu, mas sim um rival. Vota-se com as vísceras e não com o cérebro.

Particularmente, Geraldo Alckmin não foi o candidato que votei nestas eleições, mas foi o preferido por 57% dos paulistas, e, no contexto eleitoral, não há o que se enlutar. Embora discorde da maneira como conduz o governo do estado, aceito a soberania das urnas. Venceu a democracia. Entretanto, se fatos relativos à equívocos em sua gestão revelar improbidade ou algo que o valha, então medidas cabíveis devem ser tomadas. Tudo de acordo com a legislação e o interesse do povo.

Numa eleição em que vimos de tudo: de aviões que pousam e outros que caem; estatal metida em escândalo; torneiras que agonizam para pingar gotas de um tal volume que já nasceu morto, entre outros tantos elementos, os personagens principais não são os candidatos envolvidos nas eleições, mas os cidadãos que, através das redes sociais, revelaram suas porções mais baixas e antidemocráticas no que se nomeou ‘ a festa da democracia’. Aguardemos cenas dos próximos capítulos deste filme que mistura terror e chanchada... Mais uma mistura tipicamente brasileira.

quarta-feira, 25 de junho de 2014

Rose Mrie Muraro: a saga de uma mulher impossível

No dia 21 de junho concluíu sua peregrinação terrestre no Rio de Janeiro uma das mulheres brasileiras mais significativas do século XX: Rose Marie Muraro (1930-2014). Nasceu quase cega. Mas fez desta deficiência o grande desafio de sua vida. Cedo intiuíu que só o impossível abre o novo; só o impossível cria. É o que diz no seu livro Memórias de uma mulher impossível (1999,35). Com parquíssima visão formou-se em física e economia. Mas logo descobriu sua vocação intelectual: de ser uma pensadora da condição humana especialmente da condição feminina. Foi ela que no final dos anos 60 do século passado, suscitou a polêmica questão de gênero. Não se limitou à questão das relações desiguais de poder entre homens e mulheres mas denunciou relações de opressão na cultura, nas ciências, nas correntes filosóficas, nas instituições, no Estado e no sistema econômico. Enfim deu-se conta de que no patriarcado de séculos reside a raíz principal deste sistema que desumaniza mulheres e também homens.
Realizou em si mesma um impressionante processo de libertação, narrado no livro Os seis meses em que fui homem (1990,6ª edição). Mas a obra quiçá mais importante de Rose Marie Muraro tenha sido Sexualidade da Mulher Brasileira: corpo e classe social no Brasil (1996). Trata-se de uma pesquisa de campo em vários Estados da federação, analisando como é vivenciada a sexualidade, tomando em conta a situação de classe das mulheres, coisa ausente nos pais fundadores do discurso psicanalítico. Neste campo Rose inovou, criando uma grelha teórica que nos faz entender a vivência da sexualidade e do corpo consoante as classes sociais. Que tipo de processo de individuação pode realizar uma mulher famélica que para não deixar o filhinho morrer, dá o sangue de seu próprio seio? Trabalhei com Rose por 17 anos como editores da Editora Vozes: ela responsável pela parte científica e eu pela parte religiosa. Mesmo sob severo controle dos órgãos de repressão millitar, Rose tinha a coragem de publicar os então autores malditos como Darcy Ribeiro, Fernando Henrique Cardoso Paulo Freire os cadernos do CEBRAP e outros. Depois de anos de longa discussão e estudo em conjunto reunimos nossas convergências num livro que considero seminal Feminino & Masculino: uma nova consciência para o encontro das diferenças (Record 2010). Destaco apenas uma frase dela:”educar um homem é educar um indivíduo, mas educar uma mulher é educar uma sociedade”.
Sem deixar nunca de lado a questão do feminino (no homem e na mulher) voltou-se cedo aos desafios da ciência e da técnica moderna. Já em 1969 lançava Autonomação e o futuro do homem e previa a precarização do mundo do trabalho.
A crise econômico-financeira de 2008 levou-a colocar a questão do capital/dinheiro com o livro Reinventando o capital/dinheiro (Idéias e Letras 2012), onde enfatiza a relevância das moedas sociais e complementares e as redes de trocas solidárias que permitem aos mais pobres garantirem sua subsistência à revelia da economia capitalista dominante.
Outra obra importante, realmente rica em conhecimentos, dados e reflexões culturais se intitula Os avanços tecnológicos e o futuro da humanidade: querendo ser Deus? (Vozes 2009). Neste texto ela se confronta com a ponta da ciência, com a nanotecnologia, a robótica, a engenharia genética e a biologia sintética. Vê vantagens nessas frentes, pois não é obscurantista. Mas pelo fato de vivermos dentro de uma sociedade que de tudo faz mercadoria, inclusive a vida, percebia o grave risco de os cientistas presumirem poderes divinos e usarem os conhecimentos para redesenharem a espécie humana. Daí o sub-título: Querendo ser Deus? Essa é a ingênua ilusão dos cientistas. O que nos salvará não é essa nova Revolução Tecnológica mas, como diz Rose, é a “Revolução da Sustentabilidade, a única que poderá salvar a espécie humana da destruição…pois a continuarmos como está, não estaremos em um jogo ganha-perde e sim no terrrivel jogo perde-perde que significará a destruição de nossa espécie, na qual todos perderemos”(Reinventando o Capital/dinheiro, 238).
Rose possuía um sentimento do mundo agudíssimo: sofria com os dramas globais e celebrava os poucos avanços. Nos últimos tempos Rose via nuvens sombrias sobre todo o planeta, pondo em risco o nosso futuro. Morreu preocupada com as buscas de alternativas salvadoras. Mulher de profunda fé e espiritualidade, sonhava com as capacidades humanas de transformar a tragédia anunciada numa crise purificadora rumo a uma sociedade que se reconcilie com a natureza e a Mãe Terra. Conclui seu livro Os avanços tecnológicos com esta sábia frase:”quando desistirmos de ser deuses poderemos ser plenamente humanos, o que ainda não sabemos o que é, mas que intuímos desde sempre”(p. 354).
Proclamada a 30 de dezembro de 2005 oficialmente pelo Presidente, Patrona do Feminismo Brasileiro e com a criação da Fundação Cultural Rose Marie Muraro em 2009 deixará um legado de fecundo humanismo para as futuras gerações. Rose Marie Muraro mostrou em sua saga pessoal que o impossível não é um limite mas um desafio. Ela se inscreve na linhagem das grandes mulheres arquetípicas que ajudam a humanidade a preservar viva a lamparina sagrada do cuidado por tudo o que existe e vive. Nesse afã ela se tornou imorredoura.

Leonardo Boff trabalhou na Ediora Vozes por 17 anos junto com Rose Marie Muraro

quinta-feira, 19 de junho de 2014

Uma democracia que se volta contra o povo

Uma grita geral da mídia corporativa, de parlamentares da oposição e de analistas sociais ligados ao status quo de viés conservador se levantou furiosamente contra o decreto presidencial que institui a Política Nacional de Participação Social. O decreto não inova em nada nem introduz novos itens de participação social. Apenas procura ordenar os movimentos sociais existentes, alguns vindos dos anos 30 do século pássado, mas que nos últimos anos se multiplicaram exponencialmente a ponto de Noam Chomsky e Vandana Shiva considerarem o Brasil o país no mundo com mais movimentos organizados e de todo tipo. O Decreto reconhece esta realidade e a estimula para que enriqueça o tipo de democracia representativa vigente com um elemento novo que é a democracia participativa. Esta não tem poder de decisão apenas de consulta, de informação, de troca e de sugestão para os problemas locais e nacionais.
Portanto, aqueles analistas que afirmam, ao arrepio do texto do Decreto, que a presença dos movimentos sociais tiram o poder de decisão do governo, do parlamento e do poder público laboram em erro ou acusam de má fé. E o fazem não sem razão. Estão acostumados a se mover dentro de um tipo de democracia de baixíssima intensidade, de costas para a sociedade e livre de qualquer controle social.
Valho-me das palavras de um sociólogo e pedagogo da Universidade de Brasília, Pedro Demo, que considero uma das mentes mais brilhantes e menos aproveitadas de nosso país. Em sua Introdução à sociologia (2002) diz enfaticamene:”Nossa democracia é encenação nacional de hipocrisia refinada, repleta de leis “bonitas”, mas feitas sempre, em última instância, pela elite dominante para que a ela sirva do começo até o fim. Políitico (com raras exceções) é gente que se caracteriza por ganhar bem, trabalhar pouco, fazer negociatas, empregar parentes e apaniquados, enriquecer-se às custas dos cofres públicos e entrar no mercado por cima…Se ligássemos democracia com justiça social, nossa democracia seria sua própria negação”(p.330.333). Não faz uma caricatura de nossa democracia mas uma descrição real daquilo que ela sempre foi em nossa história. Em grande parte possui o caráter de uma farsa,. Hoje chegou, em alguns aspectos, a níveis de escárnio.
Mas ela pode ser melhorada e enriquecida com a energia acumulada pelos centenas de movimentos sociais e pela sociedade organizada que estão revitalizando as bases do país e que não aceitam mais esse tipo de Brasil. Por força da verdade, importa reconhecer, que, entre acertos e erros, ele ganhou outra configuração a partir do momento em que outro sujeito histórico, vindo da grande tribulação, chegou à Presidência da República. Agora esses atores sociais querem completar esta obra de magnitude histórica com mais participação. E eles têm direito a isso, pois a democracia é um modo de viver e de organizar a vida social sempre em aberto – democracia sem fim – no dizer do sociólogo português Boaventura de Souza Santos.
Quem conhece a vasta obra de Norberto Bobbio um dos maiores teóricos da democracia no século XX, sabe das infindas discussões que cercam este tema, desde do tempo dos gregos que, por primeiro, a formularam. Mas deixando de lado este exitante debate, podemos afirmar que o ato de votar não é o ponto de chegada ou o ponto final da democracia como querem os liberais. É um patamar que permite outros níveis de realização do verdadeiro sentido de toda a política: realizar o bem comum através da vontade geral que se expressa por representantes eleitos e pela participação da sociedade organizada. Dito de outra forma: é criar as condições para o desenvolvimento integral das capacidades essenciais de todos os membros da sociedade.
Isso no pensar de Bobbio – simplificando uma complexa discussão – se viabiliza através da democracia formal e da democracia substancial. A formal se constitui por um conjunto de regras, comportamentos e procedimentos para chegar a decisões políticas por parte do governo e dos representantes eleitos. Como se depreende, estabelecem-se regras como alcançar a decisões políticas mas não define o que decidir. É aqui que entra a democracia substancial. Ela determina certos conjuntos de fins, principalmente o pressuposto de toda a democracia: a igualdade de todos perante a lei, a busca comum do bem comum, a justiça social, o combate aos privilégios e a todo tipo de corrupção e não em último lugar a preservação das bases ecológicas que sustentam a vida sobre a Terra e o futuro da civilização humana.
Os movimentos sociais e a sociedade organizada, devido à gravidade da situação global do sistema-vida e do sistema-Terra e na busca de um caminho melhor para o Brasil e para o mundo querem oferecer a sua ciência, as experiências feitas, seus inventos, suas formas próprias de produzir, distribuir e consumir, em fim, tudo aquilo que possa contribuir na invenção de outro tipo de Brasil no qual tudos possam caber, a natureza inteira incluída.

Uma democracia que se nega a esta colaboração é uma democracia que se volta contra o povo e, no termo, contra a vida. Daí a importância de secundarmos o Decreto presidencial sobre a Política Nacional de Participação Social, tão irrefutavelmente explicada em entrevista na TV e em O Gl0bo (16 /6/2014) pelo Ministro-chefe da Secretaria Geral da Presidência Gilberto Carvalho.
Leonardo Boff foi professor de Etica e Teologia e é escritor

segunda-feira, 19 de maio de 2014

O tempo das utopias mínimas viáveis


Não é verdade que vivemos tempos pós-utópicos. Aceitar esta afirmação é mostrar uma representação reducionista do ser humano. Ele não é apenas um dado que está ai fechado, vivo e consciente, ao lado de outros seres. Ele é também um ser virtual. Esconde dentro de si virtualidades ilimitadas que podem irromper e concretizar-se. Ele é um ser de desejo, portador do princípio esperança (Bloch), permanentemente insatisfeito e sempre buscando novas coisas. No fundo, ele é um projeto infinito, à procura de um obscuro objeto que lhe seja adequado.

É desse transfundo virtual que nascem os sonhos, os pequenos e grandes projetos e as utopias mínimas e máximas. Sem elas o ser humano não veria sentido em sua vida e tudo seria cinzento. Uma sociedade sem uma utopia deixaria de ser sociedade, lhe faltaria um fator de coesão interna, um rumo definido pois afundaria no pântano dos interesses individuais ou corporativos. O que entrou em crise não são as utopias, mas certo tipo de utopia, as utopias maximalistas vindas do passado.

Os últimos séculos foram dominados por utopias maximalistas. A utopia iluminista que universalizaria o império da razão contra todos os tradicionalismos e autoritarismos. A utopia industrialista de transformar as sociedades com produtos tirados da natureza e da invenções técnicas. A utopia capitalista de levar progresso e riqueza para todo mundo. A utopia socialista de gerar sociedades igualitárias e sem classes. As utopias nacionalistas sob a forma do nazifascismo que, a partir de uma nação poderosa, de “raça pura”, redesenharia a humanidade, impondo-se a todo mundo. Atualmente a utopia da saúde total, gestando as condições higiênicas e medicinais que visam a imortalidade biológica ou o prolongamento da vida até a idade das céculas (cerca de 130 anos). A utopia de um único mundo globalizado sob a égide da economia de mercado e da democracia liberal. A utopia de ambientalistas radicais que sonham com uma Terra virgem e o ser humano totalmente integrado nela.

Essas são as utopias máximalistas. Propunham o máximo. Muitas deles foram impostas com violência ou geraram violência contra seus opositores. Temos hoje distância temporal suficiente para nos confirmar que estas utopias maximalistas frustraram o ser humano. Entraram em crise e perderam seu fascínio. Dai falarmos de tempos pós-utópicos. Mas o pós se refere a este tipo de utopia maximalista. Elas deixaram um rastro de decepção e de depressão, especialmente, a utopia da revolução absoluta dos anos 60-70 do século passado como a cultura hippy e seus derivados.

Mas a utopia permanece porque pertence ao ânimo humano. Hoje a busca se orienta pelas utopias minimalistas, aquelas que, no dizer de Paulo Freire, realizam o “possível viável” e fazem a sociedade “menos malvada e tornam menos difícil o amor”. Nota-se por todas as partes a urgência latente de utopias do simples melhoramento do mundo. Tudo o que nos entra pela muitas janelas de informação nos levam a sentir: assim como o mundo está não pode continuar. Mudar e se não der, ao menos melhorar.

Não pode continuar a absurda acumulação de riqueza como jamais houve na história (85 mais ricos possuem rendas correspondentes a 3,57 bilhões de pessoas, como denunciava a ONG Oxfam intermón em janeiro deste ano em Davos). Para esses, o sistema econômico-financeiro não está em crise; ao contrário, oferece chances de acumulação como nunca antes na história devastadora do capitalismo. Há que se pôr um freio à verocidade produtivista que assalta os bens e serviços da natureza em vista da acumulação, produz gases de efeito estufa que alimenta o aquecimento global. Se não for detido, poderá produzir um armagedon ecológico.

As utopias minimalistas, a bem da verdade, são aquelas que vêm sendo implementadas pelo governo atual do PT e seus aliados com base popular: garantir que o povo coma duas ou três vezes ao dia, pois o primeiro dever de um Estado é garantir a vida dos cidadãos; isso não é assistencialismo mas humanitarismo em grau zero. São os projeto “minha casa-minha vida”, “luz para todos”, o aumento significativo do salário mínimo, o “Prouni” que permite o acesso aos estudos superiores a estudantes socialmente menos favorecidos, os “pontos de cultura” e outros projetos populares que não cabe aqui elencar.

Na perspectiva das  grandes maiorias, são verdadeiras utopias mínimas viáveis: receber um salário que atenda as necessidades da família, ter acesso à saúde, mandar os filhos à escola, conseguir um transporte coletivo que não lhe tire tanto tempo de vida, contar com serviços sanitários básicos, dispor de lugares de lazer e de cultura e com uma aposentadoria digna para enfrentar os achaques da velhice.

A consecução destas utopias mínimas  cria a base para utopias mais altas: que tenhamos uma verdadeira democracia participativa de base popular, aspirar que os povos se abracem na fraternidade, que não se guerreiem, se unam todos para preservar este pequeno e belo planeta Terra, sem o qual nenhuma utopia máxima ou mínima pode ser projetada. O primeiro ofício do ser humano é viver livre de necessidades e gozar um pouco do reino da liberdade. E por fim poder dizer: “valeu a pena”.

Leonardo Boff escreveu: Virtudes para um outro mundo possivel, 3 vol. Vozes 2005.

segunda-feira, 5 de maio de 2014

O GOLPE MILITAR DE 1964 E A IGREJA CATÓLICA

O FÓRUM DE PARTICIPAÇÃO DA V CONFERÊNCIA DE APARECIDA CONVIDA PARA A MESA REDONDA:
Dia: 14 de Maio de 2014 - Quarta-feira
Hora: 19:00 às 21:00 hs
Local: AUDITÓRIO PAULINAS - Sobreloja Livraria Paulinas- Rua Domingos de Morais, 660 – São Paulo - SP (ao lado do Metrô Ana Rosa).
 
ENTRADA FRANCA
Debatedores:
Dom Angélico Sândalo Bernardino – Bispo emérito de Blumenau, SC
- De Ribeirão Preto a São Paulo, na trincheira das pastorais, dos movimentos populares e do jornal “O São Paulo” - Depoimento de um protagonista.
José  Cardonha (Zé Legal) - Professor de Ciências Políticas da Universidade São Francisco
- "Resistência Católica ao Estado Autoritário Brasileiro nos Anos de Chumbo" (1968 - 1974). 
José Oscar Beozzo – historiador e coordenador geral do CESEEP: Centro Ecumênico de Serviços à Evangelização e Educação Popular
- Frente ao golpe, posições conflitantes na Ação Católica (JEC, JUC, JAC e JOC), MEB, AP e Episcopado.
Roberval Freire – Moderador – SPM – Serviço Pastoral do Migrante
Membros do Fórum de Participação da V Conferência de Aparecida:
Associação de Escolas Católicas (AEC/SP), Assessoria da Comissão Ampliada das CEBs, Casa da Solidariedade da Região Ipiranga/SP, Centro Ecumênico de Serviços à Evangelização e Educação Popular (CESEEP), Centro de Defesa dos Direitos da Criança/SP, Conselho Indigenista Missionário (CIMI/SP), Comissão Pastoral da Terra (CPT/SP), Conselho de Leigos da Arquidiocese de São Paulo (CLASP ), Conferência dos Religiosos do Brasil (CRB - Regional/SP), Pastoral da Moradia, Grito dos Excluídos, Missionários Combonianos, Pastoral da Mulher Marginalizada; Pastoral Operária, Pastoral do Menor  Estado/SP, Paulinas Editora, Serviço de Pastoral ao Migrante (SPM), Jubileu Sul Brasil.
 
INFORMAÇÕES: CESEEP Tel.: 011-3105-1680; PASTORAL OPERÁRIA: Tel.: 011- 2695 0404: SPM: Tel.: 011-2063 7064; PAULINAS: Tel.: 011-5081-9330.
BLOG: <www.forumaparecida.blogspot.com>

quarta-feira, 23 de abril de 2014

O Surgimento do termo “Leigo” na Igreja Cristã 1ª Parte


O termo “leigo”, segundo o dicionário Crítico de Teologia, 2 considera, em primeiro

lugar, a concepção de dois campos semânticos. Um se refere à concepção moderna, na qual

leigo é aquele que é independente de confissões religiosas, referente ao estado, manifestan-

do toda a ausência de referências religiosas no sistema político e educacional. O outro cam-

po semântico está ligado à “estruturação da igreja como sociedade religiosa, referente às

pessoas ligadas a atividades comuns dos que são batizados, ao contrário dos clérigos, que

além de serem batizados, recebem o sacramento da ordem e orientações para atos de gover- no, ensino e presidência dos cultos” 3. 

A palavra leigo do grego

λαïκó̋ significa “aquele que pertence ao povo ou provém dele: não oficial, civil, comum”. 4 Um termo que infelizmente deixa sua lacuna bíblica, por

estar ausente no Antigo e no Novo Testamento. Porém, é válido enfatizar que embora este

termo não apareça nas Sagradas Escrituras, é um adjetivo derivado da palavra

λαó̋ , que

quer dizer povo. Logo, é possível constatar a abundância do termo

λαó̋ percorrendo por

toda a Bíblia. Por exemplo, ao apresentar “citações chaves do livro do Êxodo (Êx 19.5), que

é retomada no Novo Testamento, na primeira epístola de Pedro (1Pd 2.5,9) e Apocalipse

(Ap. 1.6; 5.10;20.6). Também no livro de Levíticos (Lv 25.12) e Jeremias (Jr 31,33) reto-

madas na Segunda carta de Paulo aos Coríntios (2Cor 6.16); Hebreus (Hb 8.10) e Apocalip- se (Ap. 21.3); ver (Grelot 1970)”. 5

“O λαïκó̋ , portanto, significa aquele que pertence ao povo de Deus, guardador e her-

deiro da aliança, povo santo. Quer dizer Igreja em seu sentido primeiro e, por conseguinte, éuma palavra que tanto na linguagem judaica como depois na linguagem cristã, designa propriamente para povo consagrado por oposição aos povos profanos.” 6

Na mesma linha, Almeida entende que no Novo testamento é apresentada uma comu-

nidade definida por sua relação com Deus ou com Cristo: “εκκλεσíα τυ Θεú  Igreja de Deus), εκκλεσíα τυ Χρστυ  Igreja de Cristo), λαó̋ Θεú (povo de Deus),

σωµα Χρστυ (corpo de Cristo)”. Este dado supõe um povo κλτ (eleito), de αδελφ  irmãos), constituindo uma αδελφτ̋ (fraternidade), pessoas que professam a mesma fé. 7 “Aqueles que não eram povo agora são povo de Deus”(1Pd. 2.10), com as quali-

dades do povo do Antigo Testamento, de “povo sagrado, reino sacerdotal”(Ex 19.6), povo que Deus escolheu e formou para que proclamassem louvores para si.”(Is 43.20-21). 8 Se há

diferenças entre sacerdotes e leigos, entre os clérigos e o laicato, estas não se encontram na

Igreja do Novo Testamento. A distinção neste período se dá entre um povo consagrado a

Deus e um povo ainda no mundo. Um povo alienado pelo pecado e um povo santo que não é

do mundo, mas está no mundo, ou seja, um povo eleito, colocado à parte, chamado e consa-

grado para uma verdadeira atuação profética de testemunhar Cristo Jesus. Este povo é dota-

do de dons espirituais, carismas dados gratuitamente pelo Espírito Santo Deus em benefício

do bem comum. (1Co 12.7). A partir destes carismas, brotam os ministérios (δακνíα que são a forma prática de viver estes carismas na perspectiva do serviço, dis-

tribuídos conforme Deus quer através do Espírito Santo (1Co 12.11). Portanto, é possível

compreender que na Igreja primitiva, o povo de Deus é um grupo escolhido, posto a parte

do mundo para professar uma mesma fé em Cristo Jesus e que os ministérios são distribuí-

dos em vista do bem comum e não como uma distinção hierárquica.

Com relação à palavra

λαïκó̋ leigo , de fato, é necessário reconhecer que a mesma

não aparece no Novo Testamento. Considera-se, portanto, a colocação de Almeida sobe a

alternativa perigosa de recorrer a anacronismos, ainda que esta pudesse expressar a realida-

de que a palavra leigo sugere. Neste sentido, seguiremos a sua proposta e critério por ele

proposto:

Um critério seria distinguir ‘apóstolos’ e ‘chefes de comunidade’ de um lado, e os demais cristãos, do outro, que seriam considerados, então, leigos e leigas, pois respeitaria assim, o significado primitivo do termo que indica ao mesmo tempo, pertença ao povo e distinçãoem relação aos chefes do povo, resultando em uma atitude de respeito ao texto, fugindo da atitude de violência para com o mesmo, uma vez que o Novo Testamento não recorre a este termo. 9

A necessidade de explicar esta questão está no fato de revelar uma atitude de respon-

sabilidade e respeito pelo texto bíblico e pelos leitores, pois muitos vivem confundidos com

muitas afirmações quanto à presença ou não do termo na Bíblia, mas sem um mínimo de

explicação. Ao adotar este critério, diversos personagens bíblicos são identificados como

leigos leigas que atuaram contribuindo com o apostolado. Como exemplo, temos a Mãe de

João Marcos que cedeu sua habitação para acolher Pedro depois que o Senhor o tirou da

prisão (At 12.12-17), Lídia, (At 16.12-15), Áquila e Prisca que desempenharam o ministério

de didáscalos (mestres, doutrores), considerados os responsáveis por essa tradição leiga na Igreja Posterior, 10 além de serem amigáveis hospitaleiros (At 18.2-3) e generosos coopera-

dores de Paulo (Rm 16.3), assim como muitos outros como Tirano (At 19.9), Ninfa (Cl

4.15), Filemon (Fm), Caio (Rm 16.23), etc. Outros ajudaram especificamente Paulo em seu

trabalho missionário, como por exemplo, Evódia, Síntique, Clemente e outros colaboradores

que trabalharam no Evangelho com Paulo (Fl 4.2-3); Trifena, Trifosa e Pérside, as quais

trabalharam muito no Senhor (Rm 16.12); Aristaco, companheiro de prisão, Marcos, Jesus o

justo, Eprafas cooperadores no Reino de Deus (Rm 16.10-12); Epafrodito, irmão coopera-

dor, que mesmo a beira da morte por amor a obra de Cristo foi enviado aos Filipenses para suprir a falta do vosso serviço (Fl 2.25-30) e tantos outros.11

Portanto, é possível identificar os vários ministérios e serviços que Deus realiza, as-

sumidos pelos cristãos “leigos e leigas.” Estes, a partir da disposição dos carismas recebidos

pelo Espírito Santo, como dom de línguas, da profecia (1Co 14), são considerados profetas e

doutores (At 13.1) aptos a pregar a palavra (2Tm 4.2) e consolidadores das comunidades (Ef

4.11-12). Estes cristãos, ao envolverem-se nas atividades apostólicas, testemunham o servi-

ço e ministério que são carismas dados pelo Espírito Santo de Deus, manifestados livremen- te.12

Esta abordagem também permite olhar para personagens do Antigo Testamento como

leigos e leigas, como por exemplo, os profetas, uma vez que não pertenciam ao grupo dos

sacerdotes ou autoridades institucionais, mas eram entendidos como parte do povo de Deus.
 
Autor: Robson Cavalcanti - atólico leigo e Teólogo pela Faculdade de Teologia da Igreja Metodista FATEO e assessor da comissão de teologia e formação do CLASP

segunda-feira, 7 de abril de 2014

Brasil pós-ditadura

Brasil pós-ditadura   
Escrito por Frei Betto   
Faz 50 anos que o golpe militar, respaldado pela Casa Branca, implantou uma ditadura no Brasil. E 29 que os generais voltaram às casernas. E agora, José, vivemos uma verdadeira democracia?

Devagar com o andor, pois o santo é de barro. Cracia, sim; mas demo... Os generais deixaram o poder. Não de ter poder. Falam grosso nos quartéis e ainda têm a petulância de batizar turmas de formandos de Agulhas Negras com o nome de “Emílio Garrastazu Médici”, o mais sanguinário de todos os ditadores.

Comissões da Verdade trabalham arduamente para apurar os crimes da ditadura. Como não são também da Justiça, atuam manietadas. Não têm poder nem projeto de punir ninguém. “Homem mau dorme bem”, intitula-se um filme de Akira Kurosawa. O que dá às Forças Armadas a prerrogativa de não prestar satisfações à nação e manter sob sigilo os arquivos do regime militar, como fazem com os documentos da Guerra do Paraguai. Mas ninguém escapa de prestar contas à história...

Passadas quase três décadas do fim da ditadura, o Brasil nem sacudiu a poeira nem deu a volta por cima. Quem é hoje a figura majestática do PMDB, o maior partido do Brasil e principal aliado do governo petista? José Sarney. Quem era o presidente da Arena, partido de respaldo à ditadura e aos crimes por ela cometidos? José Sarney.

Nossas estruturas ainda conservam fortes resquícios dos 21 anos (1964-1985) de atrocidades. Em especial na política, que mantém o mesmo número de senadores por estado, malgrado a desproporção populacional, e aprova o financiamento de campanhas eleitorais por empreiteiras, bancos e empresas. Sei que nem tudo é como dantes – temos pluripartidarismo e a Constituição de 1988 –, mas ainda trafegamos à sombra do quartel de Abrantes.

Houve mudanças! O impossível aconteceu: Lula eleito presidente e o PT há 11 anos no poder. Lá chegou graças aos movimentos sociais que minaram os alicerces da ditadura. Como já disse, o poder, a cracia, ganhou novos protagonistas. Porém, a demo... o povo ficou de fora!

Nossa democracia ainda é predominantemente delegativa (delega-se, pelo voto, poder ao eleito); tendenciosamente representativa (vide os lobbies do agronegócio e dos grandes meios de comunicação); e nada participativa.

A socialdemocracia chegou ao Brasil, paradoxalmente, pelas mãos do PT, e não do PSDB. A pobreza extrema sofreu significativa redução; a escolaridade ampliou-se; a saúde socorreu-se na importação de médicos estrangeiros. No Nordeste, trocou-se o jegue pela moto. A inflação ficou sob controle; o salário mínimo teve crescimento expressivo; a linha branca, desonerada e facilitada pelo crédito, encheu os domicílios populares de geladeiras, fogões e máquinas de lavar.

Quem nunca comeu melado... Cadê os benefícios sociais? Transporte coletivo precário e congestionado; saúde pública infeccionada por falta de recursos; educação sem qualidade; segurança despreparada e insuficiente.

Em 11 anos de governo petista, nenhuma reforma de estruturas. Nem a agrária, nem a política, nem a tributária. Como fazia a ditadura, os megaprojetos atropelam as exigências ambientais (transposição do São Francisco; hidrelétricas como Belo Monte; Copa), enquanto a Amazônia perde o fôlego asfixiada por lavouras movidas a agrotóxicos e  ampliação dos pastos abertos a serra elétrica.

Eis que, de repente, o Brasil se dá conta de que não está deitado em berço esplêndido. E o gigante adormecido acorda... nas manifestações de rua!

Se os 11 anos de governo petista promoveram considerável inclusão econômica, falta propiciar a participação política. Ao contrário, temos um governo despolitizante, que acredita que só de pão vive o homem... Nada estranho que haja arruaças em manifestações.

Ainda somos o país do futuro... O presente requer um novo projeto Brasil.

sexta-feira, 28 de março de 2014

Inovar, Criar, Manter
(Considerações sobre um ano de Francisco como Papa)

É sabido por todos (exceto pelos soberbos norte-americanos), que o inventor da aviação é Santos Dumont. Contudo, pouco mais de cem anos após seu avião cruzar os céus de Paris, não contemplamos mais geringonças como o 14 BIS voando por aí. Ao contrário, vê-se jatos supersônicos, jumbos e boeings, aviões espiões que não são detectados por radares e aviões asiáticos que simplesmente desaparecem. E quem sabe o nome dos inventores de cada um destes exemplares?
Sabe-se que, aqui, podemos entrar num perigoso e controverso terreno que se refere ao inédito, autoral e outras discussões tão contemporâneas quanto celulares touch. Mas há neste raciocínio, um dado que chama a atenção, que é o anonimato de quem aprimora, aperfeiçoa e mantém aquilo que, um dia, foi novidade.
Há cerca de duas semanas, completou-se o primeiro ano de pontificado do Papa Francisco. Até agora, o que se nota é a figura de um líder em consonância com os anseios de mudança do mundo, católico ou não. Ele, nestes primeiros doze meses, tem anunciado o inesperado. De maneira surpreendente tem conduzido uma instituição milenar espalhada pelo planeta, tão complexa quanto e como um organismo vivo, pulsante, mutável.
De fato, o frescor de sua mensagem, de humildade radical e sintonia da Igreja com um rosto pobre e sofredor de quem a compõe, nos revela um papa mais pastoral e atuante, em contraste com as seguidas décadas de um clero mais dogmático, tomado pelas discussões teológicas, deixando escapar temas mais relevantes, como sua atuação política, os possíveis desdobramentos do Concílio Vaticano II o enfrentamento de mazelas como a fome, a mortalidade infantil, o avanço da AIDS, os grandes deslocamentos de populações rurais para áreas urbanas, e sua conseqüente marginalização, entre outras demandas.
Em um curto período, Francisco já demonstrou querer recuperar o tempo perdido. Entre seus feitos, tem sinalizando uma postura humilde como servo, e não empregador; aceitou a renúncia do bispo alemão Franz-Peter Tebartz van Elst – conhecido pela vida soberba e os excessivos gastos com sua mansão episcopal; comandou uma limpeza em corruptas instâncias eclesiais do Banco do Vaticano e, entre outras coisas, escreveu as contundentes encíclicas "Lúmen Fidei" e "Evangelii Gaudium". Esta última, chamando a atenção para o convite à relevância da iniciativa dos leigos na evangelização, além, da incorporação de elementos de culturas regionais ao anúncio e celebração da Boa Nova.
Tanta novidade, contudo, está em vias de ser testada, pois, como mencionado no início, manter a radicalidade de tamanhas mudanças é extremamente complexo. Em parte porque exige fôlego e disposição de continuar indispondo-se com setores reacionários. E, ainda, pelo fato de boa parte das pessoas preferirem a pirotecnia de quem propõe medidas mirabolantes do que quem trabalha cotidianamente. Não há quem se lembre do operário que labuta no anonimato da rotina.
É, portanto, a partir de agora que sua missão começa, na manutenção das novidades anunciadas. Não por acaso, escolheu o INÉDITO (entre as escolhas dos Papas) nome de Francisco. O santo de Assis, um dia, ao rezar, ouviu o chamado de Deus para reconstruir sua Igreja, o que é significativo, pois pressupõe restaurar, consertar aquilo que já está edificado, o que pode dar tanto trabalho quanto, mas sem tantos louros e condecorações em troca.
Rezemos, portanto, para que o Francisco de nossos dias tenha a teimosia tipicamente argentina, de insistir no que está começando, ainda que isso lhe custe um mariano esquecimento, aquele destinado a quem trabalha no bastidor, no apagar dos holofotes.
E a propósito:  Que os Estados Unidos se inspirem na modéstia de Bergóglio para, de uma vez por todas, admitirem que, embora muitos norte-americanos empenhem-se silenciosamente em melhorá-la, quem criou a máquina que - literalmente – deu asas ao sonho de Ícaro, foi um ilustre cidadão verde e amarelo.



Texto e ilustração por João Carlos Teixeira


quarta-feira, 26 de março de 2014

Igreja Católica e o golpe de 1964

Sabemos que o povo latino-americano é profundamente religioso. Pergunte a um pequeno agricultor qual a sua visão de mundo e, com certeza, receberá uma resposta de caráter religioso.

Sabemos todos? Quase todos. Exceto certa parcela da esquerda latino-americana que, influenciada pelo positivismo marxista europeu, se esqueceu de aplicar o método dialético ao fator religioso e, na contramão de Marx e Engels (vide O Cristianismo Primitivo, de Engels), considerou tudo o que cheira a água benta e incenso pura alienação a ser duramente combatida. E o pior: incluíram nos estatutos de seus partidos a exigência de o novo militante declarar-se formalmente ateu... Ou seja, primeiro, ateu; depois, revolucionário.

Já a direita, mais inteligente em sua esperteza, sempre soube explorar o fator religioso em seu proveito. Assim, para evitar que Jango implementasse no Brasil reformas de base (estruturais), evocou a proteção anticomunista de Nossa Senhora Aparecida e importou dos EUA o padre Peyton que promoveu aqui, nas principais capitais, Marchas da Família com Deus pela Liberdade.

Veio o golpe militar, a 1º de abril de 1964, e não era mentira... Jango foi deposto e a sanha repressiva se disseminou pelo Brasil.

Como membro da direção nacional da Ação Católica, participei no Rio, no Convento do Cenáculo, na rua Pereira da Silva, em Laranjeiras, da reunião da CNBB na qual os bispos católicos definiram sua posição frente à quartelada. Houve acalorada discussão entre progressistas e conservadores. De um lado, Dom Helder Camara, bispo auxiliar do Rio, apoiado por Dom Carlos Carmelo Mota, arcebispo de São Paulo e presidente da CNBB, criticaram os militares por desrespeito à Constituição e à ordem democrática. De outro, Dom Vicente Scherer, arcebispo de Porto Alegre, e Dom Geraldo Sigaud, arcebispo de Diamantina (MG), exigiam Te Deum por ter a Virgem de Aparecida escutado os clamores do povo e livrado o Brasil da ameaça comunista. Venceu esta segunda posição. A CNBB deu seu apoio oficial aos militares golpistas.

Porém, não há mal que sempre dure. Àquela altura, um amplo setor da Igreja Católica já estava comprometido com a resistência à ditadura. Esta não soube perceber a diferença entre católicos progressistas e conservadores. Cometeu o equívoco de considerar a Igreja uma instituição monolítica, de poder centralizado, unívoco, que tacitamente acendia uma vela a Deus e outra ao diabo...

O germe do progressismo católico no Brasil havia sido semeado pela Ação Católica, influenciada pela Ação Católica francesa que, na Segunda Guerra, participou da resistência ao nazismo em aliança com os comunistas. Aqui, a JEC (Juventude Estudantil Católica) e a JUC (Juventude Universitária Católica) se destacavam na luta por justiça no movimento estudantil. Desses movimentos nasceu a Ação Popular, na qual os militantes católicos de esquerda atuavam sem prestar contas aos bispos nem comprometer a instituição eclesiástica.

Na primeira semana de junho de 1964, dois meses após o golpe, o CENIMAR, serviço secreto da Marinha, promoveu no Rio o arrastão destinado a prender militantes da Ação Popular. Para ele não havia diferença entre Ação Católica e Ação Popular. O apartamento da direção nacional da Ação Católica, da JUC e da JEC, vizinho do Convento do Cenáculo, foi invadido na madruga de 5 para 6 de junho de 1964. Fomos todos presos.

Em outras regiões do país, leigos, religiosos(as) e padres foram perseguidos, presos e/ou convocados a depor em IPMs (Inquérito Policial Militar).

Logo a repressão percebeu que nem toda a Igreja apoiava o golpe. Havia até mesmo bispos e cardeais críticos à ditadura e dispostos a defender os direitos humanos. Muitos se engajaram em ações de resistência, seja proferindo sermões tidos como “subversivos”, seja escondendo perseguidos políticos.

A partir da prisão dos frades dominicanos aliados à Ação Libertadora Nacional comandada por Carlos Marighella, em novembro de 1969 (vide meu livro e filme de mesmo título, dirigido por Helvécio Ratton, Batismo de Sangue), aprofundou-se o conflito entre Estado e Igreja Católica. A CNBB, já então hegemonizada por bispos progressistas, emitiu documentos em defesa dos direitos humanos e da democracia, e o papa Paulo VI respaldou os religiosos encarcerados.

Em São Paulo, o cardeal Dom Paulo Evaristo Arns criou, a partir de 1970, uma vasta articulação de resistência e crítica à ditadura, e defesa dos direitos humanos: Comissão Justiça e Paz, equipe Clamor, jornal O São Paulo, culminando na publicação do mais consistente documento anti-ditadura produzido até hoje, o livro Brasil Nunca Mais, no qual os crimes da ditadura são divulgados com base, não em notícias de jornais, e sim em documentos oficiais elaborados pelas Forças Armadas.

Leia também:

Meu 1º de abril de 1964 (artigo anterior de Frei Betto)
O apoio da mídia ao golpe e à ditadura
Os 50 anos do Comício da Central
Abaixo a ditadura!


Frei Betto é escritor, autor de Diário de Fernando – nos cárceres da ditadura militar brasileira (Rocco), entre outros livros.

Website: http://www.freibetto.org/
Twitter: @freibetto

terça-feira, 11 de março de 2014

Ser Ecumênico

 

PARA COMEÇO DE CONVERSA
Chamamos de ecumenismo a busca da unidade entre as Igrejas Cristãs.
Chamamos de Diálogo Inter-Religioso o processo de entendimento mútuo entre diferentes tradições religiosas.
O ECUMENISMO QUE QUEREMOS NÃO É…
  • Mistura de tudo num mesmo cristianismo;
  • Disfarce, para uma igreja dominar a outra;
  • Algo que afaste a pessoa de sua própria igreja;
  • Fazer todos concordarem em tudo;
  • Fingir que as diferenças não existem;
  • Desvalorizar as normas de cada igreja;
  • Deixar de lado o espírito crítico diante de qualquer grupo cristão.
ENTÃO, O QUE É ?…
  • Diálogo que reconhece e respeita a diversidade;
  • Valorização de tudo que já une as Igrejas;
  • Trabalho conjunto na construção de um mundo melhor;
  • Criação de laços de afeto fraterno entre Igrejas;
  • Oração em comum a partir da mesma fé;
  • Busca sincera de caminhos para curar as feridas da separação;
  • Valorização leal de tudo de bom que as diferentes denominações cristãs realizam.

BOAS RAZÕES PARA SERMOS ECUMÊNICOS

  • Jesus pediu a unidade de seus discípulos e discípulas (Jo 17,21);
  • A fé comum e o batismo;
  • Igrejas que se agridem mutuamente prejudicam a pregação do evangelho aos que não crêem;
  • O mundo precisa desse testemunho de que a paz é sempre possível;
  • Igrejas unidas tem mais força para defenderem a justiça e realizarem obras importantes, na caridade;
  • Ter amigos é melhor e mais saudável do que ter competidores.

CAMPOS COMPLEMENTARES DE ECUMENISMO

  • NA VIDA: são as boas relações de amizade entre pessoas de Igrejas diferentes.
  • NA AÇÃO SOCIAL: são os trabalhos em conjunto para socorrer os necessitados e lutar pela justiça.
  • NA ORAÇÃO: são as celebrações e preces feitas em conjunto ou orações pessoais pela causa da unidade.
  • NO DIÁLOGO TEOLÓGICO: são os estudos sobre doutrina realizados por teólogos de várias igrejas, trabalhando juntos na busca de melhores modos de tratar as divergências.

ESPIRITUALIDADE ECUMÊNICA

O ecumenismo exige um coração voltado para a paz e a valorização do outro. Não basta realizar ações ecumênicas, é preciso ter de fato a espiritualidade do diálogo. Essa espiritualidade exige o cultivo de muitas qualidades.

COMO VOCÊ PODE COLABORAR

  • Tratando as outras igrejas como você gosta que tratem a sua;
  • Divulgando o material, os eventos e as alegrias do movimento ecumênico;
  • Orando também pelas outras igrejas, quando pedir a Deus pela sua;
  • Aprendendo a ouvir o que as igrejas têm a dizer sobre o seu jeito de viver o seguimento de Jesus;
  • Conhecendo bem a sua igreja para apresentá-la correta e serenamente aos irmãos cristãos;
  • Participando de eventos ecumênicos sempre que possível;
  • Cultivando uma atitude de boa vontade, capaz de reconhecer o que há de bom em cada igreja;
  • Aprendendo a falar com irmãos de outras denominações cristãs, numa linguagem tranquila, não agressiva, que informe, mas não ofenda;
  • Perdoando e compreendendo, se houver falhas no diálogo, o que pode acontecer, depois de tantos séculos de rejeição mútua.
O Movimento de Fraternidade de Igrejas Cristãs (MOFIC) é, oficialmente, o representante do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs (CONIC) no Estado de São Paulo. A Casa da Reconciliação, sede do MOFIC, disponibiliza um site, onde você poderá se informar a respeito do que acontece sobre Ecumenismo.
IGREJAS-MEMBRO do MOFIC
Apostólica Armênia
Episcopal Anglicana do Brasil
Católica Romana
Evangélica de Confissão Luterana no Brasil
Presbiteriana Unida
Ortodoxa Antioquina
Ortodoxa Grega

segunda-feira, 3 de março de 2014

Carnaval incessante

Neste Carnaval, quero baile à fantasia, e a loucura insaciada dos que desfilam em blocos seus desejos irrefreáveis. Arrancarei do coração uma por uma de minhas máscaras: do cínico, do farsante e do pusilânime.

Quero-me nu na passarela em que me exibirei pelo avesso – aversões e preconceitos, contradições e mesquinharias. Sairei desfantasiado de barro e sopro, tal qual Deus me pôs no mundo.

Serei anônimo na euforia da escola de samba que terá como enredo a triste sina da alegria infeliz. Embriagado de nostalgias, contemplarei da avenida o brilho sideral dos carros alegóricos que atravessam em corso a Via Láctea.

Cantarei marchinhas no coro dos anjos e clamarei a altos brados todos os efes da fartura brasileira: fé, festa, feijão, farinha e futebol.

Segredarei à porta-estandarte o ritmo de minha respiração compassada e compassiva. Desatolado de todas as alegorias, entrarei em meditação em pleno apogeu do recuo da bateria.

Cessado o burburinho das ruas, esmaecidas as luzes, adormecidos os foliões, atravessarei sozinho o sambódromo e recolherei pelo chão as sombras das tristezas fantasiadas de júbilo, das lágrimas contidas no ritual do riso, das ilusões defraudadas pela realidade.

Deixarei ali os retalhos dessa descomplacência que me atordoa o espírito, na esperança de que a magia do próximo desfile exiba, em solene pompa, essa represada voracidade amorosa.

Se por acaso cruzar com Momo, hei de sugerir que se aposente. Carnaval já não é a festa da comilança que empanturra o estômago. São olhos glutões a engolirem, sôfregos, seios e bíceps e coxas e nádegas e braços e pernas, sedentos de narcísico reconhecimento, imprimindo ao espírito o fastio irremediável, tão enjoativo quanto a certeza de que, das cinzas da quarta-feira, a fénix da esbeltez não renasce.

Se a bateria prosseguir ressoando em meus ouvidos, apelarei a Orfeu para que me empreste a sua lira e me permita mergulhar nos mares subterrâneos do inconsciente. Aspiro pelo canto inebriador das musas, e prefiro a agonia imponente do órgão e a suavidade feminina da harpa aos sons desconexos dessa parafernália que bem traduz minhas atribulações.

Carnaval é feito de momentos e eu, de tormentos. Devo fugir para alguma ilha deserta, abscôndita, embarcado no mar revolto de meu plexo solar ou fingir na avenida que os deuses do Olimpo vieram coroar-me? Onde andarão as cabrochas do meu bem-viver e o mestre-sala do meu destino?

Ah, quem dera pudesse eu trocar de humor a cada nova roupa, rasgar os mantos lúgubres que não me protegem do frio, acreditar nessa inversão de papéis que me conduz à apoteose exatamente quando o show é obrigado a cessar.

Deixarei banhar-me de confetes na folia e me enroscarei em serpentinas para encobrir essa minha ânsia de desnudar a alma despudoradamente.

Ao amanhecer, quando o exército da faxina adentrar, serei encontrado estirado no asfalto, cada pedaço espalhado em um canto, à espera de que suas vassouras me juntem os cacos, cicatrizem-me as articulações, energizem os meus ossos e inflem a minha carne, até que eu ouse o mais difícil – fantasiar-me de mim mesmo.

Então ingressarei no baile da transparência, exibirei as vísceras no bloco da sensatez, trarei lá do fundo de meu ser a fonte de uma alegria que inaugura o império do silêncio.

Ficarei tão leve que, com certeza, voarei sem asas, embriagado pela euforia que o Carnaval suscita.

Sim, quero mais, quero um Carnaval que nunca cesse e seja tão deslimitado que faça os mortos dos cemitérios saírem pelas ruas em infindável cordão, entoando loas à vida. E que o brilho do coração irradie tanta luz que traga aos meus olhos a cegueira para o transitório.

Neste Carnaval, sejam ternas e eternas as minhas alegrias, distantes dos melindres fugidios, entregues às mais puras melodias, às mais inefáveis poesias.



Frei Betto é escritor, autor de "Aldeia do Silêncio" (Rocco), entre outros livros.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Meio ambiente


Era na Idade Média. Parecia mais fácil amar a natureza. Francisco de Assis canta com palavras líricas o amor às criaturas. No entanto, ele exprimia mais profecia que lirismo. O capitalismo iniciava os primeiros passos. O fenômeno da urbanização esticava tentáculos sobre as regiões rurais. Os curtumes poluíam horrorosamente as águas. A indústria de vidro praticava devastações. A incúria nas plantações avançava sobre as florestas. Também lá, antes mesmo que a fúria do capitalismo atingisse a insânia dos nossos dias, já a natureza sofria agressões. Francisco veio trazer o anúncio da vida, do amor a tudo que saiu um dia do big bang criativo de Deus.

Hoje a situação se tornou ainda mais dramática. Grito da terra, grito dos pobres, escreve L. Boff. A Terra é o grande pobre que, se morre, com ele todos morremos. Ela está doente. A doença avança e as medicinas parecem ineficazes. O problema do meio ambiente se põe com toda a gravidade já para a presente geração. Os riscos se tornam ainda maiores para as próximas.

Há vários níveis de risco para a humanidade. O primeiro e primário é simplesmente a destruição do ecossistema com consequências imprevisíveis. Os fenômenos atmosféricos são lentos de serem modificados. Por isso, as distorções hoje praticadas vão ter momento mais crítico anos, décadas ou talvez ainda mais tarde. Por sua vez, as correções de rota também se imporão com atraso. Teme-se que “amanhã será demasiado tarde”. Os temas mais agitados referem-se ao adelgaçamento da camada de ozônio, ao fenômeno-estufa com o consequente aquecimento da terra que provoca o derretimento da calota polar e a subida dos mares, etc.

Há, além disso, uma crescente poluição e envenenamento das águas doces, o acúmulo de substâncias tóxicas na terra, o armazenamento de bombas atômicas sem a suficiente cautela e segurança. Enfim, tantas e tantas ameaças! A descrição tinge-se de cores mais ou menos vivas segundo a verve do escritor. Em todos os casos, esconde-se um medo generalizado de que corremos riscos maiores que nossa maturidade e responsabilidade sabem administrar.

Outro lado da questão diz respeito à nossa dimensão espiritual. Esta vem sendo hoje mais agitada. O meio ambiente não é simplesmente um habitat físico. Não pertence sem mais ao mundo do objeto posto diante de nós para ser manipulado a nosso bel prazer. Não. É nossa casa. Mais: somos parte dele e ele é parte de nós. Pouco a pouco estamos tomando consciência de que o ato criativo de Deus não foi nenhum chute inicial de uma bola que foi entregue ao jogo de nossos pés. É um ato de amor que envolve de sacralidade a todas as criaturas. E entre elas estamos nós, na condição privilegiada, não de usuários e depredadores, mas de consciência acordada dessa realidade.

Somos a luz inteligente que não faz a realidade, que não dispõe de qualquer modo de todo o criado, mas que, ao iluminá-lo, pode entrar em profunda comunhão com ele. Não vivemos a noite do animal, mas a aurora do espírito. Por isso, todas as criaturas adquirem para nós uma dignidade e uma aura sagrada de sua fonte e destino. Nasceu tudo do gesto criativo de Deus. Tudo está destinado a uma glorificação. Nesse intervalo, existimos para admirar o processo evolutivo dos bilhões de anos e nele inserir nossa ação histórica de respeito e louvor a toda criatura e nela ao Criador. Somos chamados a ser de novo um Francisco de Assis profeta nessa modernidade avançada e desvairada para salvar a Mãe Terra, a nossa casa cósmica.

João Batista Libânio é teólogo jesuíta. Licenciado em Teologia em Frankfurt (Alemanha) e doutorado pela Universidade Gregoriana (Roma). É professor da FAJE (Faculdades Jesuítas), em Belo Horizonte. Publicou mais de noventa livros entre os de autoria própria (36) e em colaboração (56), e centenas de artigos em revistas nacionais e estrangeiras. Internacionalmente reconhecido como um dos teólogos da Libertação.
 
 

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

“Olhai como crescem os lírios do campo......”


“Olhai como crescem os lírios do campo......”, Somente um personagem com olhar cheio de sensibilidade e amor, pode enxergar a beleza onde todos vêem o caos.

 Onde há morte, Ele vê vida plena.

 E nós o que vemos ao olharmos a periferia e principalmente os jovens que aqui sobrevivem? E até onde vai a nossa sensibilidade e amor?

Em uma rápida olhada podemos ver jovens que consideremos seres de outro mundo vestidos de forma inadequada que se reúnem em guetos para não fazer nada somente ouvir musicas que mais parece barulho.

Como se não bastasse apenas imaginar ou deduzir ainda emitimos nossas opiniões como se fossem verdades, condenamos os jovens a viver o hoje fazendo acreditarem que não haverá amanhã.

Dizendo a eles “não vão durar muito” “ não darão boa coisa na vida”, já os matamos antes mesmo de viverem.

Com um olhar mais atento talvez vejamos e escutemos o grito dos excluídos como ultimo suspiro pela vida, a juventude grita por seu lugar na sociedade, como força de trabalho, como consumidores, como cidadãos com seus deveres e direitos, não querem ser lembrados apenas como coadjuvantes, mas como protagonistas que tem vez e voz.

Vivemos em uma sociedade onde a impunidade reina e faz cresce a sede pela justiça mas das justiça que pune, não que educa, pois fugimos do compromisso da educação e de sermos educadores.

Cobramos responsabilidades dos jovens e os queremos prontos, porém nos omitimos do processo de formação do seu caráter, esquecemos que para ser o que somos hoje passamos por um caminhar adquirindo valores que nos acompanham para a vida toda.

Somos grandes defensores de varias causas nobres entre elas a questão ecológica que é crescente e importante nos dias de hoje, pensamos no planeta, nas formas de trabalho sustentável, preservação dos nossos rios, matas e animais, usamos até uma frase famosa para justificar a causa tão nobre, “que planeta vamos deixar para os nossos filhos”, mas há uma pergunta que insiste em ficar martelando minha cabeça, “que jovens vamos deixar para o nosso mundo”.

Não podemos deixar de olhar a realidade e usar da sensibilidade do amor para ver os lírios que crescem em cada canto da periferia pedem, clamam para ser cultivamos, adubados e recados, em cada rosto, em cada olhar dos jovens esta presente o sonho de uma vida digna, até quando vamos negar a realização deste sonho.

 

Vejo na TV o que eles falam sobre o jovem não é sério.

O jovem no Brasil nunca é levado a sério(...).

Sempre quis falar, nunca tive chance

tudo que eu queria estava fora do meu alcance(...).

(Charles Brown Junior – “Não é sério”)
 
Por: Rogério da Silva - Catequista

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Meninos de Rua: uma nova cultura?




Há fenômenos esporádicos que recebem soluções rápidas, eficazes e diretas. Assim, por efeito de uma catástrofe, muitas famílias ficam desabrigadas. Uma intervenção do Estado ou da Sociedade civil resolve de uma vez a questão. Há, porém, outros problemas que se arrastam e lentamente se inserem na cultura de modo profundo. Nesse caso, as soluções são lentas, difíceis e supõem trabalho constante.

Os meninos de rua estão deixando de ser caso emergencial para tornar-se fenômeno urbano com rede intrincada de outros problemas. A pesquisa já nos fala de 47,6% que estão na rua há mais de cinco anos. De outro lado, percentual semelhante não participa de nenhum programa de reintegração. “São os chamados resistentes, que têm hábitos e cultura baseados na vida de rua”, comenta a coordenadora do Projeto Miguilin. Soma-se a este fato a constatação do médico Marcelo, da Clínica Ammor,  de que, entre os meninos estudados por ele,somente 10% dos que atingiram a maioridade conseguiram permanecer em empregos fixos. Interferem vários fatores, mas, sem dúvida, predomina já um tipo de cultura adquirido na rua que não coaduna com a disciplina da sociedade do trabalho.

A vida da na rua passa lentamente de necessidade, de aventura esporádica para cultura. Os meninos e meninas de rua criam modo próprio de viver, de relacionar-se, de organizar-se, de comunicar-se. Aí eles se entendem. Retirados de tal cultura, perdem-se. A escola torna-se para muitos deles verdadeira prisão, comparada com a liberdade da rua. A disciplina do trabalho estável contradiz a mobilidade gigantesca que possuem. A rua exige contínua criatividade para enfrentar situações novas e inesperadas. O trabalho na atual sociedade ainda responde, na maioria dos casos, aos esquemas do fordismo e taylorismo, em terrível e aborrecida repetição. Trocar a monotonia rotineira pela aventura da rua significaria forte mudança cultural.

Na rua, eles estabelecem teia de símbolos e sentidos com que se representam a vida, as crenças, os códigos de convivência. Inventam série de técnicas e estratégias para viver e sobreviver, enfrentando a polícia, aproveitando o máximo possível das entidades que os assistem. Vivem um sistema de vida em permanente adaptação, mas dentro dos quadros da rua e não fora dela.

Criam padrões de comportamento, que eles mesmos socializam entre si. Fala-se mesmo de transmissão de geração, porque já há crianças que nasceram na rua e agora já têm filhos morando na rua.

Levanta-se dupla pergunta teológica e pastoral. Uma se refere ao futuro dessas crianças, as suas possibilidades humanas de existência. Elas vivem, ao mesmo tempo, no coração da sociedade moderna, a rua. Por outro lado, alienam-se dessa sociedade, ao serem excluídas de muitos comportamentos e estruturas do mundo moderno. É terrível por envolverem-se com o lado tenebroso do submundo da droga. E aí a vida se queima como lâmpada de muito esplendor e pouca duração.

Não funcionam as transmigrações violentas para outros lugares de regras de vida tão diferentes que os meninos de rua se sintam como peixe fora d´água e lutarão para voltar para as antigas águas.

Por isso, o desafio pastoral vai lentamente insinuando novos comportamentos, novos sentidos, nova teia de relacionamento que libertem, por dentro e por fora, essas crianças de uma vida sem futuro e de alto risco.



João Batista Libânio é teólogo jesuíta. Licenciado em Teologia em Frankfurt (Alemanha) e doutorado pela Universidade Gregoriana (Roma). É professor da FAJE (Faculdades Jesuítas), em Belo Horizonte. Publicou mais de noventa livros entre os de autoria própria (36) e em colaboração (56), e centenas de artigos em revistas nacionais e estrangeiras. Internacionalmente reconhecido como um dos teólogos da Libertação.

 

domingo, 26 de janeiro de 2014

Os rolezinhos nos acusam: somos uma sociedade injusta e segregacionista

O fenômeno dos centenas de rolezinhos que ocuparam shoppings centers no Rio e em São Paulo suscitou as mais disparatadas interpretações.
Algumas, dos acólitos da sociedade neoliberal do consumo que identificam cidadania com capacidade de consumir, geralmente nos jornalões da mídia comercial, nem merecem consideração. São de uma indigência analítica de fazer vergonha.
 
Mas houve outras análises que foram ao cerne da questão como a do jornalista Mauro Santayana do JB on-line e as de três  especialistas que avaliaram a irrupção dos rolês na visibilidade pública e o elemento explosivo que contém.
 
Refiro-me à Valquíria Padilha, professora de sociologia na USP de Ribeirão Preto:”Shopping Center: a catedral das mercadorias”(Boitempo 2006), ao sociólogo da Universidade Federal de Juiz de Fora, Jessé Souza,”Ralé brasileira: quem é e como vive (UFMG 2009) e  de Rosa Pinheiro Machado, cientista social com um artigo”Etnografia do Rolezinho”no Zero Hora de 18/1/2014. Os três deram entrevistas esclarecedoras.
Eu por minha parte interpreto da seguinte forma tal irrupção:
 
Em primeiro lugar, são jovens pobres, das grandes periferias,  sem espaços de lazer e de cultura, penalizados por serviços públicos ausentes ou muito ruins como saúde, escola, infra-estrutura sanitária, transporte, lazer e segurança. Veem televisão cujas propagandas os seduzem para um consumo que nunca vão poder realizar. E sabem manejar computadores e entrar nas redes sociais para articular encontros.
 
Seria ridículo exigir deles que teoricamente tematizem sua insatisfação. Mas sentem na pele o quanto nossa sociedade é malvada porque exclui, despreza e mantém os filhos e filhas da pobreza na invisibilidade forçada. O que se esconde por trás de sua irrupção?
 
O fato de não serem incluidos no contrato social. Não adianta termos uma “constituição cidadã” que neste aspecto é apenas retórica, pois  implementou muito pouco do que prometeu em vista da inclusão social. Eles estão fora, não contam, nem sequer servem de carvão  para o consumo de nossa fábrica social (Darcy Ribeiro). Estar incluído no contrato social significa ver garantidos os serviços básicos: saúde, educação, moradia, transporte, cultura, lazer e segurança. Quase nada disso funciona nas periferias. O que eles estão dizendo com suas penetrações nos bunkers do consumo? “Oia nóis na fita”; “nois não tamo parado”;”nóis tamo aqui para zoar”(incomodar). Eles estão com seu comportamento rompendo as barreiras do aparheid social. É uma denúncia de um país altamente injusto (eticamente), dos mais desiguais do mundo (socialmente), organizado sobre um grave pecado social pois contradiz o  projeto de Deus (teologicamente). Nossa sociedade é conservadora e nossas elites altamente insensíveis  à paixão de seus semelhantes e por isso cínicas.
 
Continuamos uma Belíndia: uma Bélgica rica dentro de uma India pobre. Tudo isso os rolezinhos denunciam, por atos e menos por palavras.
 
Em segundo lugar,  eles denunciam a nossa maior chaga: a desigualdade social cujo verdadeiro nome é injustiça histórica e social.
 
Releva, no entanto, constatar que com as políticas sociais do governo do PT a desigualdade diminiui, pois segundo o IPEA os 10% mais pobres tiveram entre 2001-2011 um crescimento de renda acumulado de 91,2% enquanto a parte mais rica cresceu 16,6%. Mas esta diferença não atingiu a raíz do problema pois o que supera a desigualdade é uma infraestrutura social de saúde, escola, transporte, cultura e lazer que funcione e acessível a todos. Não é suficiente transferir renda; tem que criar oportunidades e oferecer serviços, coisa que não foi o foco principal no Ministério de Desenvolvimento Social. O “Atlas da Exclusão Social” de Márcio Poschmann (Cortez 2004) nos mostra que há cerca de 60 milhões de famílias,  das quais cinco mil famílias extensas detém 45% da riqueza nacional. Democracia sem igualdade, que é seu pressupsto, é farsa e retórica. Os rolezinhos denunciam essa contradição. Eles entram no “paraíso das mercadorias” vistas virtualmente na TV para ve-las realmente e senti-las nas mãos.
 
Eis o sacrilégio insuportável pelos donos do shoppings. Eles não sabem dialogar, chamam logo a polícia para bater e fecham as portas a esses bárbaros. Sim, bem o viu T.Todorov em seu livro “Os novos bárbaros”: os marginalizados do mundo inteiro estão saindo da margem e indo rumo ao centro para suscitar a má consciência dos “consumidores felizes” e lhes dizer: esta ordem é ordem na desordem. Ela os faz frustrados e infelizes, tomados de medo, medo dos próprios semelhantes que somos nós.
 
Por fim, os rolezinhos não querem apenas consumir. Não são animaizinhos famintos. Eles tem fome sim, mas fome de reconhecimento, de acolhida na sociedade, de lazer, de cultura e de mostrar o que sabem: cantar, dançar, criar poemas críticos, celebrar a convivência humana. E querem trabalhar para ganhar sua vida. Tudo isso lhes é negado, porque, por serem pobres, negros, mestiços sem olhos azuis e cabelos loiros, são desperezados e mantidos longe, na margem.
 
Esse tipo de sociedade pode ser chamada ainda de humana e civilizada? Ou é uma forma travestida de barbárie? Esta última lhe convem mais. Os rolezinhos mexeram numa pedra que começou a rolar. Só parará se houver mudanças.
Artigo escrito primeiramente para o JB on-line