segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Meio ambiente


Era na Idade Média. Parecia mais fácil amar a natureza. Francisco de Assis canta com palavras líricas o amor às criaturas. No entanto, ele exprimia mais profecia que lirismo. O capitalismo iniciava os primeiros passos. O fenômeno da urbanização esticava tentáculos sobre as regiões rurais. Os curtumes poluíam horrorosamente as águas. A indústria de vidro praticava devastações. A incúria nas plantações avançava sobre as florestas. Também lá, antes mesmo que a fúria do capitalismo atingisse a insânia dos nossos dias, já a natureza sofria agressões. Francisco veio trazer o anúncio da vida, do amor a tudo que saiu um dia do big bang criativo de Deus.

Hoje a situação se tornou ainda mais dramática. Grito da terra, grito dos pobres, escreve L. Boff. A Terra é o grande pobre que, se morre, com ele todos morremos. Ela está doente. A doença avança e as medicinas parecem ineficazes. O problema do meio ambiente se põe com toda a gravidade já para a presente geração. Os riscos se tornam ainda maiores para as próximas.

Há vários níveis de risco para a humanidade. O primeiro e primário é simplesmente a destruição do ecossistema com consequências imprevisíveis. Os fenômenos atmosféricos são lentos de serem modificados. Por isso, as distorções hoje praticadas vão ter momento mais crítico anos, décadas ou talvez ainda mais tarde. Por sua vez, as correções de rota também se imporão com atraso. Teme-se que “amanhã será demasiado tarde”. Os temas mais agitados referem-se ao adelgaçamento da camada de ozônio, ao fenômeno-estufa com o consequente aquecimento da terra que provoca o derretimento da calota polar e a subida dos mares, etc.

Há, além disso, uma crescente poluição e envenenamento das águas doces, o acúmulo de substâncias tóxicas na terra, o armazenamento de bombas atômicas sem a suficiente cautela e segurança. Enfim, tantas e tantas ameaças! A descrição tinge-se de cores mais ou menos vivas segundo a verve do escritor. Em todos os casos, esconde-se um medo generalizado de que corremos riscos maiores que nossa maturidade e responsabilidade sabem administrar.

Outro lado da questão diz respeito à nossa dimensão espiritual. Esta vem sendo hoje mais agitada. O meio ambiente não é simplesmente um habitat físico. Não pertence sem mais ao mundo do objeto posto diante de nós para ser manipulado a nosso bel prazer. Não. É nossa casa. Mais: somos parte dele e ele é parte de nós. Pouco a pouco estamos tomando consciência de que o ato criativo de Deus não foi nenhum chute inicial de uma bola que foi entregue ao jogo de nossos pés. É um ato de amor que envolve de sacralidade a todas as criaturas. E entre elas estamos nós, na condição privilegiada, não de usuários e depredadores, mas de consciência acordada dessa realidade.

Somos a luz inteligente que não faz a realidade, que não dispõe de qualquer modo de todo o criado, mas que, ao iluminá-lo, pode entrar em profunda comunhão com ele. Não vivemos a noite do animal, mas a aurora do espírito. Por isso, todas as criaturas adquirem para nós uma dignidade e uma aura sagrada de sua fonte e destino. Nasceu tudo do gesto criativo de Deus. Tudo está destinado a uma glorificação. Nesse intervalo, existimos para admirar o processo evolutivo dos bilhões de anos e nele inserir nossa ação histórica de respeito e louvor a toda criatura e nela ao Criador. Somos chamados a ser de novo um Francisco de Assis profeta nessa modernidade avançada e desvairada para salvar a Mãe Terra, a nossa casa cósmica.

João Batista Libânio é teólogo jesuíta. Licenciado em Teologia em Frankfurt (Alemanha) e doutorado pela Universidade Gregoriana (Roma). É professor da FAJE (Faculdades Jesuítas), em Belo Horizonte. Publicou mais de noventa livros entre os de autoria própria (36) e em colaboração (56), e centenas de artigos em revistas nacionais e estrangeiras. Internacionalmente reconhecido como um dos teólogos da Libertação.
 
 

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