segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Meninos de Rua: uma nova cultura?




Há fenômenos esporádicos que recebem soluções rápidas, eficazes e diretas. Assim, por efeito de uma catástrofe, muitas famílias ficam desabrigadas. Uma intervenção do Estado ou da Sociedade civil resolve de uma vez a questão. Há, porém, outros problemas que se arrastam e lentamente se inserem na cultura de modo profundo. Nesse caso, as soluções são lentas, difíceis e supõem trabalho constante.

Os meninos de rua estão deixando de ser caso emergencial para tornar-se fenômeno urbano com rede intrincada de outros problemas. A pesquisa já nos fala de 47,6% que estão na rua há mais de cinco anos. De outro lado, percentual semelhante não participa de nenhum programa de reintegração. “São os chamados resistentes, que têm hábitos e cultura baseados na vida de rua”, comenta a coordenadora do Projeto Miguilin. Soma-se a este fato a constatação do médico Marcelo, da Clínica Ammor,  de que, entre os meninos estudados por ele,somente 10% dos que atingiram a maioridade conseguiram permanecer em empregos fixos. Interferem vários fatores, mas, sem dúvida, predomina já um tipo de cultura adquirido na rua que não coaduna com a disciplina da sociedade do trabalho.

A vida da na rua passa lentamente de necessidade, de aventura esporádica para cultura. Os meninos e meninas de rua criam modo próprio de viver, de relacionar-se, de organizar-se, de comunicar-se. Aí eles se entendem. Retirados de tal cultura, perdem-se. A escola torna-se para muitos deles verdadeira prisão, comparada com a liberdade da rua. A disciplina do trabalho estável contradiz a mobilidade gigantesca que possuem. A rua exige contínua criatividade para enfrentar situações novas e inesperadas. O trabalho na atual sociedade ainda responde, na maioria dos casos, aos esquemas do fordismo e taylorismo, em terrível e aborrecida repetição. Trocar a monotonia rotineira pela aventura da rua significaria forte mudança cultural.

Na rua, eles estabelecem teia de símbolos e sentidos com que se representam a vida, as crenças, os códigos de convivência. Inventam série de técnicas e estratégias para viver e sobreviver, enfrentando a polícia, aproveitando o máximo possível das entidades que os assistem. Vivem um sistema de vida em permanente adaptação, mas dentro dos quadros da rua e não fora dela.

Criam padrões de comportamento, que eles mesmos socializam entre si. Fala-se mesmo de transmissão de geração, porque já há crianças que nasceram na rua e agora já têm filhos morando na rua.

Levanta-se dupla pergunta teológica e pastoral. Uma se refere ao futuro dessas crianças, as suas possibilidades humanas de existência. Elas vivem, ao mesmo tempo, no coração da sociedade moderna, a rua. Por outro lado, alienam-se dessa sociedade, ao serem excluídas de muitos comportamentos e estruturas do mundo moderno. É terrível por envolverem-se com o lado tenebroso do submundo da droga. E aí a vida se queima como lâmpada de muito esplendor e pouca duração.

Não funcionam as transmigrações violentas para outros lugares de regras de vida tão diferentes que os meninos de rua se sintam como peixe fora d´água e lutarão para voltar para as antigas águas.

Por isso, o desafio pastoral vai lentamente insinuando novos comportamentos, novos sentidos, nova teia de relacionamento que libertem, por dentro e por fora, essas crianças de uma vida sem futuro e de alto risco.



João Batista Libânio é teólogo jesuíta. Licenciado em Teologia em Frankfurt (Alemanha) e doutorado pela Universidade Gregoriana (Roma). É professor da FAJE (Faculdades Jesuítas), em Belo Horizonte. Publicou mais de noventa livros entre os de autoria própria (36) e em colaboração (56), e centenas de artigos em revistas nacionais e estrangeiras. Internacionalmente reconhecido como um dos teólogos da Libertação.

 

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