segunda-feira, 3 de março de 2014

Carnaval incessante

Neste Carnaval, quero baile à fantasia, e a loucura insaciada dos que desfilam em blocos seus desejos irrefreáveis. Arrancarei do coração uma por uma de minhas máscaras: do cínico, do farsante e do pusilânime.

Quero-me nu na passarela em que me exibirei pelo avesso – aversões e preconceitos, contradições e mesquinharias. Sairei desfantasiado de barro e sopro, tal qual Deus me pôs no mundo.

Serei anônimo na euforia da escola de samba que terá como enredo a triste sina da alegria infeliz. Embriagado de nostalgias, contemplarei da avenida o brilho sideral dos carros alegóricos que atravessam em corso a Via Láctea.

Cantarei marchinhas no coro dos anjos e clamarei a altos brados todos os efes da fartura brasileira: fé, festa, feijão, farinha e futebol.

Segredarei à porta-estandarte o ritmo de minha respiração compassada e compassiva. Desatolado de todas as alegorias, entrarei em meditação em pleno apogeu do recuo da bateria.

Cessado o burburinho das ruas, esmaecidas as luzes, adormecidos os foliões, atravessarei sozinho o sambódromo e recolherei pelo chão as sombras das tristezas fantasiadas de júbilo, das lágrimas contidas no ritual do riso, das ilusões defraudadas pela realidade.

Deixarei ali os retalhos dessa descomplacência que me atordoa o espírito, na esperança de que a magia do próximo desfile exiba, em solene pompa, essa represada voracidade amorosa.

Se por acaso cruzar com Momo, hei de sugerir que se aposente. Carnaval já não é a festa da comilança que empanturra o estômago. São olhos glutões a engolirem, sôfregos, seios e bíceps e coxas e nádegas e braços e pernas, sedentos de narcísico reconhecimento, imprimindo ao espírito o fastio irremediável, tão enjoativo quanto a certeza de que, das cinzas da quarta-feira, a fénix da esbeltez não renasce.

Se a bateria prosseguir ressoando em meus ouvidos, apelarei a Orfeu para que me empreste a sua lira e me permita mergulhar nos mares subterrâneos do inconsciente. Aspiro pelo canto inebriador das musas, e prefiro a agonia imponente do órgão e a suavidade feminina da harpa aos sons desconexos dessa parafernália que bem traduz minhas atribulações.

Carnaval é feito de momentos e eu, de tormentos. Devo fugir para alguma ilha deserta, abscôndita, embarcado no mar revolto de meu plexo solar ou fingir na avenida que os deuses do Olimpo vieram coroar-me? Onde andarão as cabrochas do meu bem-viver e o mestre-sala do meu destino?

Ah, quem dera pudesse eu trocar de humor a cada nova roupa, rasgar os mantos lúgubres que não me protegem do frio, acreditar nessa inversão de papéis que me conduz à apoteose exatamente quando o show é obrigado a cessar.

Deixarei banhar-me de confetes na folia e me enroscarei em serpentinas para encobrir essa minha ânsia de desnudar a alma despudoradamente.

Ao amanhecer, quando o exército da faxina adentrar, serei encontrado estirado no asfalto, cada pedaço espalhado em um canto, à espera de que suas vassouras me juntem os cacos, cicatrizem-me as articulações, energizem os meus ossos e inflem a minha carne, até que eu ouse o mais difícil – fantasiar-me de mim mesmo.

Então ingressarei no baile da transparência, exibirei as vísceras no bloco da sensatez, trarei lá do fundo de meu ser a fonte de uma alegria que inaugura o império do silêncio.

Ficarei tão leve que, com certeza, voarei sem asas, embriagado pela euforia que o Carnaval suscita.

Sim, quero mais, quero um Carnaval que nunca cesse e seja tão deslimitado que faça os mortos dos cemitérios saírem pelas ruas em infindável cordão, entoando loas à vida. E que o brilho do coração irradie tanta luz que traga aos meus olhos a cegueira para o transitório.

Neste Carnaval, sejam ternas e eternas as minhas alegrias, distantes dos melindres fugidios, entregues às mais puras melodias, às mais inefáveis poesias.



Frei Betto é escritor, autor de "Aldeia do Silêncio" (Rocco), entre outros livros.

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