sexta-feira, 28 de março de 2014

Inovar, Criar, Manter
(Considerações sobre um ano de Francisco como Papa)

É sabido por todos (exceto pelos soberbos norte-americanos), que o inventor da aviação é Santos Dumont. Contudo, pouco mais de cem anos após seu avião cruzar os céus de Paris, não contemplamos mais geringonças como o 14 BIS voando por aí. Ao contrário, vê-se jatos supersônicos, jumbos e boeings, aviões espiões que não são detectados por radares e aviões asiáticos que simplesmente desaparecem. E quem sabe o nome dos inventores de cada um destes exemplares?
Sabe-se que, aqui, podemos entrar num perigoso e controverso terreno que se refere ao inédito, autoral e outras discussões tão contemporâneas quanto celulares touch. Mas há neste raciocínio, um dado que chama a atenção, que é o anonimato de quem aprimora, aperfeiçoa e mantém aquilo que, um dia, foi novidade.
Há cerca de duas semanas, completou-se o primeiro ano de pontificado do Papa Francisco. Até agora, o que se nota é a figura de um líder em consonância com os anseios de mudança do mundo, católico ou não. Ele, nestes primeiros doze meses, tem anunciado o inesperado. De maneira surpreendente tem conduzido uma instituição milenar espalhada pelo planeta, tão complexa quanto e como um organismo vivo, pulsante, mutável.
De fato, o frescor de sua mensagem, de humildade radical e sintonia da Igreja com um rosto pobre e sofredor de quem a compõe, nos revela um papa mais pastoral e atuante, em contraste com as seguidas décadas de um clero mais dogmático, tomado pelas discussões teológicas, deixando escapar temas mais relevantes, como sua atuação política, os possíveis desdobramentos do Concílio Vaticano II o enfrentamento de mazelas como a fome, a mortalidade infantil, o avanço da AIDS, os grandes deslocamentos de populações rurais para áreas urbanas, e sua conseqüente marginalização, entre outras demandas.
Em um curto período, Francisco já demonstrou querer recuperar o tempo perdido. Entre seus feitos, tem sinalizando uma postura humilde como servo, e não empregador; aceitou a renúncia do bispo alemão Franz-Peter Tebartz van Elst – conhecido pela vida soberba e os excessivos gastos com sua mansão episcopal; comandou uma limpeza em corruptas instâncias eclesiais do Banco do Vaticano e, entre outras coisas, escreveu as contundentes encíclicas "Lúmen Fidei" e "Evangelii Gaudium". Esta última, chamando a atenção para o convite à relevância da iniciativa dos leigos na evangelização, além, da incorporação de elementos de culturas regionais ao anúncio e celebração da Boa Nova.
Tanta novidade, contudo, está em vias de ser testada, pois, como mencionado no início, manter a radicalidade de tamanhas mudanças é extremamente complexo. Em parte porque exige fôlego e disposição de continuar indispondo-se com setores reacionários. E, ainda, pelo fato de boa parte das pessoas preferirem a pirotecnia de quem propõe medidas mirabolantes do que quem trabalha cotidianamente. Não há quem se lembre do operário que labuta no anonimato da rotina.
É, portanto, a partir de agora que sua missão começa, na manutenção das novidades anunciadas. Não por acaso, escolheu o INÉDITO (entre as escolhas dos Papas) nome de Francisco. O santo de Assis, um dia, ao rezar, ouviu o chamado de Deus para reconstruir sua Igreja, o que é significativo, pois pressupõe restaurar, consertar aquilo que já está edificado, o que pode dar tanto trabalho quanto, mas sem tantos louros e condecorações em troca.
Rezemos, portanto, para que o Francisco de nossos dias tenha a teimosia tipicamente argentina, de insistir no que está começando, ainda que isso lhe custe um mariano esquecimento, aquele destinado a quem trabalha no bastidor, no apagar dos holofotes.
E a propósito:  Que os Estados Unidos se inspirem na modéstia de Bergóglio para, de uma vez por todas, admitirem que, embora muitos norte-americanos empenhem-se silenciosamente em melhorá-la, quem criou a máquina que - literalmente – deu asas ao sonho de Ícaro, foi um ilustre cidadão verde e amarelo.



Texto e ilustração por João Carlos Teixeira


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