quarta-feira, 23 de abril de 2014

O Surgimento do termo “Leigo” na Igreja Cristã 1ª Parte


O termo “leigo”, segundo o dicionário Crítico de Teologia, 2 considera, em primeiro

lugar, a concepção de dois campos semânticos. Um se refere à concepção moderna, na qual

leigo é aquele que é independente de confissões religiosas, referente ao estado, manifestan-

do toda a ausência de referências religiosas no sistema político e educacional. O outro cam-

po semântico está ligado à “estruturação da igreja como sociedade religiosa, referente às

pessoas ligadas a atividades comuns dos que são batizados, ao contrário dos clérigos, que

além de serem batizados, recebem o sacramento da ordem e orientações para atos de gover- no, ensino e presidência dos cultos” 3. 

A palavra leigo do grego

λαïκó̋ significa “aquele que pertence ao povo ou provém dele: não oficial, civil, comum”. 4 Um termo que infelizmente deixa sua lacuna bíblica, por

estar ausente no Antigo e no Novo Testamento. Porém, é válido enfatizar que embora este

termo não apareça nas Sagradas Escrituras, é um adjetivo derivado da palavra

λαó̋ , que

quer dizer povo. Logo, é possível constatar a abundância do termo

λαó̋ percorrendo por

toda a Bíblia. Por exemplo, ao apresentar “citações chaves do livro do Êxodo (Êx 19.5), que

é retomada no Novo Testamento, na primeira epístola de Pedro (1Pd 2.5,9) e Apocalipse

(Ap. 1.6; 5.10;20.6). Também no livro de Levíticos (Lv 25.12) e Jeremias (Jr 31,33) reto-

madas na Segunda carta de Paulo aos Coríntios (2Cor 6.16); Hebreus (Hb 8.10) e Apocalip- se (Ap. 21.3); ver (Grelot 1970)”. 5

“O λαïκó̋ , portanto, significa aquele que pertence ao povo de Deus, guardador e her-

deiro da aliança, povo santo. Quer dizer Igreja em seu sentido primeiro e, por conseguinte, éuma palavra que tanto na linguagem judaica como depois na linguagem cristã, designa propriamente para povo consagrado por oposição aos povos profanos.” 6

Na mesma linha, Almeida entende que no Novo testamento é apresentada uma comu-

nidade definida por sua relação com Deus ou com Cristo: “εκκλεσíα τυ Θεú  Igreja de Deus), εκκλεσíα τυ Χρστυ  Igreja de Cristo), λαó̋ Θεú (povo de Deus),

σωµα Χρστυ (corpo de Cristo)”. Este dado supõe um povo κλτ (eleito), de αδελφ  irmãos), constituindo uma αδελφτ̋ (fraternidade), pessoas que professam a mesma fé. 7 “Aqueles que não eram povo agora são povo de Deus”(1Pd. 2.10), com as quali-

dades do povo do Antigo Testamento, de “povo sagrado, reino sacerdotal”(Ex 19.6), povo que Deus escolheu e formou para que proclamassem louvores para si.”(Is 43.20-21). 8 Se há

diferenças entre sacerdotes e leigos, entre os clérigos e o laicato, estas não se encontram na

Igreja do Novo Testamento. A distinção neste período se dá entre um povo consagrado a

Deus e um povo ainda no mundo. Um povo alienado pelo pecado e um povo santo que não é

do mundo, mas está no mundo, ou seja, um povo eleito, colocado à parte, chamado e consa-

grado para uma verdadeira atuação profética de testemunhar Cristo Jesus. Este povo é dota-

do de dons espirituais, carismas dados gratuitamente pelo Espírito Santo Deus em benefício

do bem comum. (1Co 12.7). A partir destes carismas, brotam os ministérios (δακνíα que são a forma prática de viver estes carismas na perspectiva do serviço, dis-

tribuídos conforme Deus quer através do Espírito Santo (1Co 12.11). Portanto, é possível

compreender que na Igreja primitiva, o povo de Deus é um grupo escolhido, posto a parte

do mundo para professar uma mesma fé em Cristo Jesus e que os ministérios são distribuí-

dos em vista do bem comum e não como uma distinção hierárquica.

Com relação à palavra

λαïκó̋ leigo , de fato, é necessário reconhecer que a mesma

não aparece no Novo Testamento. Considera-se, portanto, a colocação de Almeida sobe a

alternativa perigosa de recorrer a anacronismos, ainda que esta pudesse expressar a realida-

de que a palavra leigo sugere. Neste sentido, seguiremos a sua proposta e critério por ele

proposto:

Um critério seria distinguir ‘apóstolos’ e ‘chefes de comunidade’ de um lado, e os demais cristãos, do outro, que seriam considerados, então, leigos e leigas, pois respeitaria assim, o significado primitivo do termo que indica ao mesmo tempo, pertença ao povo e distinçãoem relação aos chefes do povo, resultando em uma atitude de respeito ao texto, fugindo da atitude de violência para com o mesmo, uma vez que o Novo Testamento não recorre a este termo. 9

A necessidade de explicar esta questão está no fato de revelar uma atitude de respon-

sabilidade e respeito pelo texto bíblico e pelos leitores, pois muitos vivem confundidos com

muitas afirmações quanto à presença ou não do termo na Bíblia, mas sem um mínimo de

explicação. Ao adotar este critério, diversos personagens bíblicos são identificados como

leigos leigas que atuaram contribuindo com o apostolado. Como exemplo, temos a Mãe de

João Marcos que cedeu sua habitação para acolher Pedro depois que o Senhor o tirou da

prisão (At 12.12-17), Lídia, (At 16.12-15), Áquila e Prisca que desempenharam o ministério

de didáscalos (mestres, doutrores), considerados os responsáveis por essa tradição leiga na Igreja Posterior, 10 além de serem amigáveis hospitaleiros (At 18.2-3) e generosos coopera-

dores de Paulo (Rm 16.3), assim como muitos outros como Tirano (At 19.9), Ninfa (Cl

4.15), Filemon (Fm), Caio (Rm 16.23), etc. Outros ajudaram especificamente Paulo em seu

trabalho missionário, como por exemplo, Evódia, Síntique, Clemente e outros colaboradores

que trabalharam no Evangelho com Paulo (Fl 4.2-3); Trifena, Trifosa e Pérside, as quais

trabalharam muito no Senhor (Rm 16.12); Aristaco, companheiro de prisão, Marcos, Jesus o

justo, Eprafas cooperadores no Reino de Deus (Rm 16.10-12); Epafrodito, irmão coopera-

dor, que mesmo a beira da morte por amor a obra de Cristo foi enviado aos Filipenses para suprir a falta do vosso serviço (Fl 2.25-30) e tantos outros.11

Portanto, é possível identificar os vários ministérios e serviços que Deus realiza, as-

sumidos pelos cristãos “leigos e leigas.” Estes, a partir da disposição dos carismas recebidos

pelo Espírito Santo, como dom de línguas, da profecia (1Co 14), são considerados profetas e

doutores (At 13.1) aptos a pregar a palavra (2Tm 4.2) e consolidadores das comunidades (Ef

4.11-12). Estes cristãos, ao envolverem-se nas atividades apostólicas, testemunham o servi-

ço e ministério que são carismas dados pelo Espírito Santo de Deus, manifestados livremen- te.12

Esta abordagem também permite olhar para personagens do Antigo Testamento como

leigos e leigas, como por exemplo, os profetas, uma vez que não pertenciam ao grupo dos

sacerdotes ou autoridades institucionais, mas eram entendidos como parte do povo de Deus.
 
Autor: Robson Cavalcanti - atólico leigo e Teólogo pela Faculdade de Teologia da Igreja Metodista FATEO e assessor da comissão de teologia e formação do CLASP

segunda-feira, 7 de abril de 2014

Brasil pós-ditadura

Brasil pós-ditadura   
Escrito por Frei Betto   
Faz 50 anos que o golpe militar, respaldado pela Casa Branca, implantou uma ditadura no Brasil. E 29 que os generais voltaram às casernas. E agora, José, vivemos uma verdadeira democracia?

Devagar com o andor, pois o santo é de barro. Cracia, sim; mas demo... Os generais deixaram o poder. Não de ter poder. Falam grosso nos quartéis e ainda têm a petulância de batizar turmas de formandos de Agulhas Negras com o nome de “Emílio Garrastazu Médici”, o mais sanguinário de todos os ditadores.

Comissões da Verdade trabalham arduamente para apurar os crimes da ditadura. Como não são também da Justiça, atuam manietadas. Não têm poder nem projeto de punir ninguém. “Homem mau dorme bem”, intitula-se um filme de Akira Kurosawa. O que dá às Forças Armadas a prerrogativa de não prestar satisfações à nação e manter sob sigilo os arquivos do regime militar, como fazem com os documentos da Guerra do Paraguai. Mas ninguém escapa de prestar contas à história...

Passadas quase três décadas do fim da ditadura, o Brasil nem sacudiu a poeira nem deu a volta por cima. Quem é hoje a figura majestática do PMDB, o maior partido do Brasil e principal aliado do governo petista? José Sarney. Quem era o presidente da Arena, partido de respaldo à ditadura e aos crimes por ela cometidos? José Sarney.

Nossas estruturas ainda conservam fortes resquícios dos 21 anos (1964-1985) de atrocidades. Em especial na política, que mantém o mesmo número de senadores por estado, malgrado a desproporção populacional, e aprova o financiamento de campanhas eleitorais por empreiteiras, bancos e empresas. Sei que nem tudo é como dantes – temos pluripartidarismo e a Constituição de 1988 –, mas ainda trafegamos à sombra do quartel de Abrantes.

Houve mudanças! O impossível aconteceu: Lula eleito presidente e o PT há 11 anos no poder. Lá chegou graças aos movimentos sociais que minaram os alicerces da ditadura. Como já disse, o poder, a cracia, ganhou novos protagonistas. Porém, a demo... o povo ficou de fora!

Nossa democracia ainda é predominantemente delegativa (delega-se, pelo voto, poder ao eleito); tendenciosamente representativa (vide os lobbies do agronegócio e dos grandes meios de comunicação); e nada participativa.

A socialdemocracia chegou ao Brasil, paradoxalmente, pelas mãos do PT, e não do PSDB. A pobreza extrema sofreu significativa redução; a escolaridade ampliou-se; a saúde socorreu-se na importação de médicos estrangeiros. No Nordeste, trocou-se o jegue pela moto. A inflação ficou sob controle; o salário mínimo teve crescimento expressivo; a linha branca, desonerada e facilitada pelo crédito, encheu os domicílios populares de geladeiras, fogões e máquinas de lavar.

Quem nunca comeu melado... Cadê os benefícios sociais? Transporte coletivo precário e congestionado; saúde pública infeccionada por falta de recursos; educação sem qualidade; segurança despreparada e insuficiente.

Em 11 anos de governo petista, nenhuma reforma de estruturas. Nem a agrária, nem a política, nem a tributária. Como fazia a ditadura, os megaprojetos atropelam as exigências ambientais (transposição do São Francisco; hidrelétricas como Belo Monte; Copa), enquanto a Amazônia perde o fôlego asfixiada por lavouras movidas a agrotóxicos e  ampliação dos pastos abertos a serra elétrica.

Eis que, de repente, o Brasil se dá conta de que não está deitado em berço esplêndido. E o gigante adormecido acorda... nas manifestações de rua!

Se os 11 anos de governo petista promoveram considerável inclusão econômica, falta propiciar a participação política. Ao contrário, temos um governo despolitizante, que acredita que só de pão vive o homem... Nada estranho que haja arruaças em manifestações.

Ainda somos o país do futuro... O presente requer um novo projeto Brasil.