terça-feira, 28 de outubro de 2014

A ressaca, os burros e as vísceras

(a ressaca, os burros e as vísceras)

Por João Carlos Teixeira

Apuradas as últimas urnas, apagados os holofotes dirigidos aos candidatos, retirados os últimos cavaletes das calçadas, o que resta é a sobriedade deste momento de pós-eleições. E, feitas as contas, algumas conclusões se evidenciam.

A primeira é a de que, corridas três décadas desde que a ditadura ruiu por aqui, temos uma democracia precária. E isto revelado, não necessariamente no trato de eleitos e eleitores, mas entre eleitores e eleitores. Estendendo, não creio que se possa dizer que estas foram as eleições de um Brasil mais politizado e engajado, mas sim, as eleições de uma Brasil ainda mais passional. O segundo turno da eleição presidencial contava com dois candidatos, dois partidos, mas poderiam ser dois times rivais... Palmeiras e Corinthians; Vasco e Flamengo; Sport e Náutico; Brasil e Argentina.

Em segundo lugar fica a convicção de que ainda não temos uma relação madura com as novas mídias de veiculação de informações. São raros os casos de equilíbrio ou uso racional das redes sociais: Ou postamos selfies ou disseminamos o ódio contra as escolhas diferentes das nossas. E neste sentido, assusta pensar que há, de fato, um pensamento consolidado de que algumas regiões do país são ‘mais inteligentes’ que outras, ou ‘superiores’ às demais.

Devido à divergência de etnias de nossa federação, o preconceito sempre esteve latente, difuso, solto no ar. Entretanto, agora, ele tem rosto, tem nome, tem um álbum com fotos felizes, em que aparece sorrindo ao lado da família... E para completar, nós conhecemos as faces, ou os Faces destes indivíduos. São nossos amigos, postam conteúdos em nossa linha do tempo, em nosso mural... Em poucas e medonhas palavras: Fazem parte de nosso círculo social!

A sensação de que uma raça é superior à outra não é nova na humanidade. São incontáveis os exemplos que o narram na história. Era o que a Alemanha nazista e a Itália fascista pensavam, só para citar dois exemplos próximos e cujas feridas ainda lutamos para curar. E deu no que todos conhecem.
Algo que também intriga é pensar como a opinião das pessoas foi decisivamente atingida pelas estatísticas. Sejam pesquisas realizadas antes do pleito, sejam pesquisas de boca de urna e seja o mapa das performances dos candidatos pelo país. Bastou a Rede Globo pintar uma parte dos estados de azul, e a outra de vermelho, para que a cisão se estabelecesse. Todas baseadas em conceitos generalizantes e vagos, endossados pela idiossincrasia dos números absolutos das urnas.

Para quem acha que o nordeste elegeu o PT, analise o que dizem – de fato – os percentuais: 47% do Rio Grande do Sul, os 40% do Paraná, os 35% de Santa Catarina, os 52% de Minas Gerais, os 54% do Rio de Janeiro, os 35% de São Paulo e os 47% do Espírito Santo. Ou seja, só os expressivos números dos Estados nordestinos não seriam suficientes para reeleger Dilma. São dezenas de milhões de eleitores de Dilma no Sul e Sudeste além de outras dezenas de milhões de eleitores de Aécio no Nordeste e, sobretudo, no Norte do país. E quem tece considerações sobre o resultado das eleições baseadas na cor que pintaram cada estado no ‘mapa das eleições presidenciais’ demonstra preguiça e a verdadeira burrice, a de não apurar os fatos com o mínimo de afinco.

Os paulistas estão garbosos de sua escolha para presidente (como se ela fosse homogênea). Por que não se orgulham dos nomes que escolheram para a câmara? Será que se preocuparam em formar coro para que seu candidato à presidência tivesse vida mais tranquila na votação de projetos? Tiveram algum critério politicamente relevante ao escolher seus deputados? É bizarro agora esbanjarem arrogância dizendo que as pessoas não sabem escolher seus representantes.

E quanto ao governo estadual? Reafirmaram o atual governador de acordo com suas convicções, ou apenas endossaram o que as pesquisas de intenções de voto já preconizavam? Alguém se deu ao trabalho de pesquisar as propostas dos outros candidatos? Ou mesmo as propostas do próprio candidato reeleito?

Há ainda quem escolha candidatos a cargos mais ‘próximos’ de nós (como vereadores e deputados estaduais) baseados na prestação de pequenos favores pessoais, empregos ou cargos públicos e outras tantas vantagens que não beneficiam a todos, mas a este ou aquele cidadão. É a visão equivocada de quem confunde interesse público com privado.

Com isso, infelizmente, conclui-se que o país não mudou. Nem após junho de 2013, tampouco após outubro de 2014. Permanecemos optando por nossos representantes políticos a esmo, ou por motivos torpes, infundados e/ou movidos pela paixão, o que é uma pena.

O saldo deste desgastante processo eleitoral é a de que teremos que conviver durante muito tempo com a opção alheia, sabendo de suas diferenças. Algo semelhante ocorreu na primeira eleição de George Bush, quando o país – já tão partido – dividiu-se durante muito tempo entre os que optaram pelo republicano Bush, e os que escolheram o democrata Al Gore.

O custo da democracia é este, e neste sentido nos entristece ver as pessoas fazendo menção de estarem de luto. Isso só representa que não sabem lidar com o diferente. Caso achem que a derrota de seu candidato representa morte, então não entendem que o princípio elementar da democracia se constitui na escolha de apenas um pela maioria. Tratam a situação da mesma forma que trataram a derrota de nossa seleção para a Alemanha na Copa deste ano, isto porque a fronteira entre votar e torcer foi diluída pela paixão, e o eleitor do outro candidato não é mais um cidadão que tem direitos e deveres como eu, mas sim um rival. Vota-se com as vísceras e não com o cérebro.

Particularmente, Geraldo Alckmin não foi o candidato que votei nestas eleições, mas foi o preferido por 57% dos paulistas, e, no contexto eleitoral, não há o que se enlutar. Embora discorde da maneira como conduz o governo do estado, aceito a soberania das urnas. Venceu a democracia. Entretanto, se fatos relativos à equívocos em sua gestão revelar improbidade ou algo que o valha, então medidas cabíveis devem ser tomadas. Tudo de acordo com a legislação e o interesse do povo.

Numa eleição em que vimos de tudo: de aviões que pousam e outros que caem; estatal metida em escândalo; torneiras que agonizam para pingar gotas de um tal volume que já nasceu morto, entre outros tantos elementos, os personagens principais não são os candidatos envolvidos nas eleições, mas os cidadãos que, através das redes sociais, revelaram suas porções mais baixas e antidemocráticas no que se nomeou ‘ a festa da democracia’. Aguardemos cenas dos próximos capítulos deste filme que mistura terror e chanchada... Mais uma mistura tipicamente brasileira.

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